sábado, 24 de dezembro de 2011



Hoje quis escolher um poema de um poeta brasileiro, Maurício de Macedo. Talvez não combine com tal espírito do natal (se é que nosso natal tem algum espírito). Ou talvez combine com o Nascimento, mais do que a corrida aos shoppings para a desobrigação dos presentes ou a ressaca dos que comemoram para esquecer – ou tripudiar – os vizinhos da periferia, pobres como o Cristo.

Bondade e inocência

Maurício de Macedo

Jesus não escreveu o Evangelho.
Jesus apenas rabiscou com o dedo
Uma palavra na areia.
O alto clero sempre soube de tudo.
Não há inocente no alto clero.

Pode ser bom quem não é inocente?

(do livro Palavras tortas. Ed. 7Letras, Rio de Janeiro. 2009)


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011



Rumo ao feio 3

O álcool é fonte de energia. Movimenta carros e gente. Em ambos detona um motor à explosão. É menos grave quando utilizado em automóveis. Quando se trata de gente é estopim que age até mesmo com efeito retardado.
Parte de nossa classe média reage contra medidas propostas para tolher os efeitos que o álcool provoca nas pessoas. Apela para um discurso equivocado, como se contenção do vício que conduz à violência fosse uma espécie de atentado à liberdade individual. É a classe média que não admite qualquer mudança no seu trem de vida, mesmo quando se trata de melhorar a dos outros; a classe média que anda de carro do ano, mas não paga taxa de condomínio; a que olha tanto para si próprio que não enxerga quem vive na favela ao lado; a que faz barulho sem constrangimento de incomodar o vizinho; a que se diz de esquerda e trata empregado como no tempo da colônia.; a que diz simpatizar com Cuba, mas tem como sonho de consumo viver em Miami.


Rumo ao feio 2

Ouvi num programa de rádio a voz de uma responsável da prefeitura anunciar que não devemos dar esmolas aos pedintes de rua. Segundo ela, todos os que vivem nas calçadas são conhecidos, há estatísticas sobre isso, um programa para que todos regressem à família.
Até parece que não vivemos na mesma cidade. Na minha, a maioria dessas pessoas, muitas delas adolescentes, não têm pai ou mãe. Ou, quando os têm, são meras figuras de retórica. Muitas dessas mães – quando existem – são levadas à prostituição ou ao tráfico de drogas e às vezes neles introduzem os próprios filhos.
Pensar que a volta à família (que família?) resolve a questão é ignorância ou descaso. Onde moro, crianças perambulam pela rua e não tenho conhecimento de qualquer lugar decente onde menores pedintes ou delinquentes são acolhidos, como nas colônias de Makarenko. O que acontece, na maioria das vezes, é que o regresso à “família” significa permanecer no submundo do crime e morrer antes dos vinte.
A responsável da prefeitura também parece não saber – embora as estatísticas confirmem – que hoje em dia um imenso número de mães tiveram filhos antes dos quinze. Crianças parindo crianças.  
Ouvir tanta tolice de alguém que se diz representante de um órgão público e fala com tanta convicção do que não sabe não resulta apenas em tolice. Em casos como este, tolice também mata.



Rumo ao feio 1

A cidade ruma em direção ao feio. Na arrumação dessa fealdade trabalham os arquitetos, sob o bater do martelo de empreiteiros e construtores. Detrás deles, uma rede intrincada de interesses subalternos equaciona nosso desespero urbano, como demônios de um quadro de Jerônimo Bosch. O efeito explode em qualquer lugar, em qualquer rua. E, para quem chega, o trajeto do aeroporto Guararapes ao bairro de Casa Forte, via Avenida Recife ou Avenida Mascarenhas de Morais, recebe o primeiro choque, o primeiro aviso: neste lugar a consciência estética está morta.
Logo entendemos que o arquiteto não é mais um localizador de sentimentos, uma espécie de organizador de tudo o que o preenche a vida humana, como desejava o filósofo do espaço, Evaldo Coutinho. Ele, o arquiteto, é apenas exemplo mais gritante da incapacidade de arrumar o caos. Sua grife, que ele negocia para dar o tom a edifícios que outros constroem, serve apenas de apelo à venda de um espaço aéreo desdobrável, cuja perspectiva é a ruina, quando o concreto também se cansar de tanto despropósito.
Na cidade caótica, contraditoriamente sem e com poucos donos, flutua um sentimento de que tudo é transitório e é exíguo o lugar do sonho. De que a vida que conta é a do extramuros, a do lado de fora, onde a preocupação com espaço e ambiente inexiste.
Porque do lado de dentro, o barulho do vizinho anda sempre de tocaia, a degradação dos espaços denominados coletivos nos assusta, no elevador há falta de bom-dia e obrigado.  Ninguém encontrou um lugar para viver que conforte e ilumine, mas algo que apenas agasalha um cotidiano descartável, sem registro ou história.  Sobretudo, sem compromisso. Como a gôndola de um supermercado.
O que é transitório dispensa beleza. Por isso, a propaganda para a venda de um prédio chama a atenção para a localização, as dimensões, os equipamentos, às vezes para a grife do arquiteto. Nunca para a harmonia do lugar, a beleza das soluções, a maneira como a construção se acorda com o resto da cidade, da rua, com alguma coisa de humano.
Às cinco da tarde, as bicicletas passam.
De dentro do automóvel ninguém se dá conta.
São operários da construção que fogem, que desertam o edifício onde o Diabo de Vinicius tentou o Cristo

(A  foto ao fundo é de Benício Dias - Fundaj)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011




Sócrates, o filósofo

Recebi, ontem, este e-mail de Hildebrando Pèrez Grande, poeta peruano, nosso amigo. E corintiano. Traduzo:

“Querido poeta, há alguns anos, lá pelos anos 80, conversava com uma amiga, esposa de um bom narrador peruano dos anos 40: José Diez Canseco, autor de romances e contos, cujos personagens eram marginais tanto das classes mais altas, quanto das mais humildes. Um bom narrador. Ela me contou esta história que nos pinta o real e maravilhoso que somos.
Eles tinham duas filhas primorosas e, uma delas, Carmen Rosa, era muita minha amiga; casada, com três filhos, e o menor, José, de uns dez anos, amante de futebol e da equipe daqueles anos. Certo domingo, na sobremesa, José surpreendeu sua avó quando ela lhe perguntou o que ele gostaria de ser quando fosse grande. O futebolista em promessa disse, sem hesitar: Quero ser como Sócrates.
A avó, após derramar umas lágrimas de emoção e de recordar o marido já morto, disse ao neto: Pois bem, José, terás a chave da Biblioteca de teu avô, lembra que era muito valiosa essa biblioteca, nela poderás preparar-te muito bem para tua carreira de filosofia.
Que filosofia, disse o neto. E a avó respondeu, mas como, se acabas de me dizer que queres ser como Sócrates. E o neto: Não preciso de biblioteca, mas de um campo onde possa treinar todos os dias depois do colégio. Obviamente, a avozinha não sabia que havia um jogador que era uma estrela que muitos admiravam, entre eles José e eu.
Saúde, contigo e com Sonia, e com Sócrates, não o grego, o brasileiro."

quinta-feira, 24 de novembro de 2011


 
Um poema de Esman Dias

Poética

 para Everardo Norões

A aranha esquiva
do teu poema
se indociliza
na tua mão

Morna e lasciva
 pétala, flanco,
sabem teus dedos
tangê-la, mansos?

Sossegue imóvel
tua ciência;
hiberne lento
teu coração

Deixa que a aranha
do teu poema
navegue a seda
da tua mão.

(Ilustração: Paul Klee)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011


O olhar do cão


Dormi mal, ontem. 
Nenhum transtorno. 
Apenas um olhar e o asco. O asco ao ver na tela a figura cínica de certo Alfredo Astiz,
o ‘anjo da morte’, ex-oficial da Marinha argentina, torturador, condenado à prisão perpétua.  
 Cínico e prepotente. No momento do veredito, acaricia a bandeira argentina pregada na lapela. 
A mesma bandeira que não foi capaz de defender nas Malvinas
quando se rendeu ao exército britânico. 
Como se renderam aqueles para quem o simulacro de pátria serve apenas a interesses subalternos.

Astiz infiltrou-se entre familiares de ‘desaparecidos’ para reprimir e matar. 
É responsável pelo desaparecimento de Azucena Villaflor, Esther Ballestrino, María Ponce,
mães da Plaza de Mayo
das freiras francesas Alice Domon e Leónie Duquet
da adolescente sueca Dagmar Hagelin
Entre outros.
Em 1990, foi condenado à prisão perpétua pela Justiça francesa. 
Anjo da morte ou do mal? 
Talvez aquele Mal que nem o Cristo nos ajudou a decifrar, quando pronunciou 
o “eles não sabem o que fazem”.
O fato é que, enquanto houver entre os humanos gente da espécie de Astiz
continuaremos a exercitar nossa indignação e a procurar, 
como escreveu André Malraux
“a região crucial da alma, onde o Mal absoluto se opõe à fraternidade”.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011



Do Ananàs Rey dos pomos.

Antonio do Rosario

 (...) Nasce, o Ananás com coroa como Rey; na casca, que parece um brocado em pinhas, tem a opa real; nos espinhos como archeyros a sua guarda; pelas insignias reais com que a natureza o produzio tão singular, de grande & fermosa estatura, tem a forma digna de imperio, entre as mais frutas do universo; mas pelas partes, & qualidades que tem para o bom governo, he Principe perfeito, porque he severo, & suave, sendo para o gosto a maior delicia; sendo tão gostoso, suave, & deleitavel, he muy severo, aspero, & cruel para os criminosos, para os que tem chagas, & feridas: rigor, & brandura a seu temdo, he o axioma do melhor governo: a severidade somente he impressão peregrina nos Principes, porque não deixão de ser homens, ainda que sejão Principes; o mais soberano timbre da magestade, he a serenidade o maior triumpho da coroa, he a clemencia, & benignidade.” (...)

In Antonio do Rosario: Frutas do Brasil. Rio de Janeiro: Fundação da Biblioteca Naional. 2008. (Fac-símile da edição de 1702). Apresentação de Marco Lucchesi.