domingo, 5 de abril de 2009



















BLANCA VARELA


Há poucos dias faleceu Blanca Varela, a grande dama da poesia peruana. A notícia nos chegou através do poeta Hildebrando Perez. O poema que segue, tradução nossa e de Diego Raphael, consta da antologia da poesia peruana El río hablador/O rio que fala, editada pela Ensol/7Letras, em 2006.

Puerto Supe

a J. B.
Está mi infancia en esta costa,
bajo el cielo tan alto,
cielo como ninguno, cielo, sombra veloz,
nubes de espanto, oscuro torbellino de alas,
azules casas en el horizonte.

Junto a la gran morada sin ventanas,
junto a las vacas ciegas,
junto al turbio licor y al pájaro carnívoro.

¡Oh, mar de todos los días,
mar montaña,
boca lluviosa de la costa fría!

Allí destruyo con brillantes piedras
la casa de mis padres,
allí destruyo la jaula de las aves pequeñas,
destapo las botellas y un humo negro escapa
y tiñe tiernamente el aire y sus jardines.

Están mis horas junto al río seco,
entre el polvo y sus hojas palpitantes,
en los ojos ardientes de esta tierra
adonde lanza el mar su blanco dardo.
Una sola estación, un mismo tiempo
de chorreantes dedos y aliento de pescado.
Toda una larga noche entre la arena.

Amo la costa, ese espejo muerto
en donde el aire gira como loco,
esa ola de fuego que arrasa corredores,
círculos de sombra y cristales perfectos.
Aquí en la costa escalo un negro pozo,
voy de la noche hacia la noche honda,
voy hacia el viento que recorre ciego
pupilas luminosas y vacías,
o habito el interior de un fruto muerto,
esa asfixiante seda; ese pesado espacio
poblado de agua y pálidas corolas.
En esta costa soy el que despierta
entre el follaje de alas pardas,
el que ocupa esa rama vacía,
el que no quiere ver la noche.

Aquí en la costa tengo raíces,
manos imperfectas,
un lecho ardiente en donde lloro a solas.


Porto Supe
a J. B.

Mora minha infância nesta costa,
sob céu tão alto,
céu como nenhum, céu, sombra veloz,
nuvens de espanto, escuro torvelinho de asas,
casas azuis no horizonte.

Junto à grande morada sem janelas,
junto às vacas cegas,
junto ao turvo licor e ao pássaro carnívoro.

Oh, mar de todos os dias,
mar montanha,
boca chuvosa desta costa fria!

Ali destruo com brilhantes pedras
a casa de meus pais,
ali destruo a gaiola das aves pequenas,
destapo as garrafas e uma fumaça negra escapa
e tinge ternamente o ar e seus jardins.

Moram minhas horas junto ao rio seco,
entre poeira e folhas palpitantes,
nos olhos ardentes desta terra
onde lança o mar seu branco dardo.
Uma única estação, um mesmo tempo
de escorregadios dedos e hálito de peixe.
Toda uma longa noite entre as areias.

Amo a costa, esse espelho morto
onde o ar gira como louco,
essa onda de fogo que arrasa corredores,
círculos de sombra e cristais perfeitos.
Aqui na costa escalo um negro poço,
vou da noite à noite mais profunda,
vou ao vento que percorre cego
pupilas luminosas e vazias,
ou habito o interior de um fruto morto,
essa asfixiante seda; esse pesado espaço
povoado de água e pálidas corolas.
Nesta costa sou o que desperta
entre a folhagem de asas pardas,
o que ocupa esse ramo vazio,
o que não quer mais ver a noite.

Aqui na costa tenho raízes,
mãos imperfeitas,
e um leito ardente onde choro a sós.
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O funâmbulo

Jean Genet

"Uma lantejoula de ouro é um disco minúsculo feito de metal dourado, trespassado por um orifício. Tão fina e tão leve que pode flutuar sobre a água. Às vezes, uma ou duas ficam agarradas nos cachos de cabelos de um acrobata.
Este amor – mas, quase desesperado; mas, carregado de ternura – que deves demonstrar ao teu arame, terá a mesma força desse fio de ferro que suportará o teu peso. Conheço os objetos: sua crueldade, sua perversidade e também sua gratidão. O arame estava morto – mudo, cego, como quiseres – ei-lo: agora ele vai viver e vai falar.
Tu o amarás, e de um amor quase carnal. Cada manhã, antes de começar teus treinos, quando ele estiver tenso e vibrante, vai dar-lhe um beijo. Pede que te suporte e te conceda a elegância e um jarrete ágil. Ao fim de cada sessão, reverencia-o, agradece-lhe. E quando, à noite, ele ainda estiver enrolado, guardado em sua caixa, vai vê-lo e o acaricia. E, então, coloca docemente tua face contra a dele.
Certos domadores usam de violência. Podes tentar domar teu arame. Mas, não te fies nisso. O arame, como a pantera e, segundo se diz, como o povo, gosta de sangue. Assim, é melhor tentar domesticá-lo.
Um ferreiro – só um ferreiro de bigodes grisalhos e largas espáduas pode se permitir tais delicadezas – saudava assim, a cada manhã, sua amada, sua bigorna:
- Oh! Minha bela!
De noite, o dia já findo, sua mão calejada a acariciava. A bigorna não parecia insensível àquele gesto e o ferreiro se surpreendia comovido.
Incumbe ao arame executar a mais bela expressão possível; não a tua, mas a dele. Teus pulos, teus saltos, tuas danças – na gíria dos acrobatas, teus volteios, saltos mortais, estrelinhas etc – serão executados não para que brilhes, mas para que o arame, que jazia morto e sem voz, possa, enfim, cantar. E, assim, ele te será grato: se fores perfeito em tuas atitudes, não em busca de tua glória, mas da dele.
Que o público, maravilhado, o aplauda:
_Que arame maravilhoso! Como ele suporta tão bem seu bailarino e como ele o ama!
Ao chegar a tua vez o arame será para ti o mais maravilhoso bailarino.
E, então, será o chão que te fará tropeçar!"
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Depois de assistir a adaptação para o teatro de O funâmbulo, de Jean Genet, feita por João Denis, resolvi traduzir este pequeno texto.
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O Infinito

E pouco provável que Dorival Caimy tenha lido Leopardi antes de compor uma de suas músicas mais famosas, É doce morrer no mar. No entanto, o famoso verso já estava contido em O infinito, o mais conhecido texto do poeta italiano Leopardi, escrito em 1819. Nada de plágio. Apenas sintonia surgida da contemplação do mar...

O Infinito

Sempre caro mi fu quest’ermo colle,
E questa siepe, che da tanta parte
Dell’ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
Spazi di là da quella, e sovrumani
Silenzi, e profondissima quiete
Io nel pensier mi fingo; ove per poco
Il cor non si spaura. E come il vento
Odo stormir tra queste piante, io quello
Infinito silenzio a questa voce
Vo comparando: e mi sovvien l’eterno,
E le morte stagioni, e la presente
E viva, e il suon di lei. Così tra questa
Immensità s’annega il pensier mio:
E il naufragar m’è dolce in questo mare.
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O Infinito

Sempre cara me foi esta colina
E esta sebe que, de toda parte,
Do último horizonte exclui a vista.
Mas sentado e olhando o interminável
Espaço além daqui, e os sobre-humanos
Silêncios e a mais funda quietude
No meu pensar me finco. E assim por pouco
O coração não pára. E como o vento
Ouço murmurar detrás das plantas,
O infinito silêncio a essa voz
Vou comparando: e lembro o eterno,
E as mortas estações e a presente,
tão viva, e os seus sons. E a imensidão
Onde se afoga o pensamento meu:
E o naufragar me é doce neste mar.
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A ilustração é de Joseph Mallord William Turner (1775 - 1851).
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Duas traduções de Mario Martínez Sobrino
FRACTALES

Por la inmersión
de las sombras
calculo
el itinerario de la luz.

Mido los contornos de nuestras ruinas
en la matemática particular
de las desesperaciones.

Abro la ventana
de la página del sueño.

Deletreo, despacio
el Aywu Rapitá:
el ser del ser de la palabra,
(flor pronunciada
entre las estrellas.)


La noche
se derrumba sobre las tejas
en la explosión de un meteoro.

Cuento esquirlas,
recompongo parábolas:
un mínimo de lo que soy
recuerda las fronteras
del Universo.


FLAMBOYANT

reviento
el corazón del verde
en esta tarde
es cuando el sol florece
jaboticabas al pie
maduro color del ojo
divino
es un color indefinido
hálito que no se describe
sólo soy
el encarnado

reviento
el corazón del verde
y sangro
al ritmo regular
y persistente de la lluvia
entonces
discurro lo que pasa
sobre esta mancha
que ensucia
la avaricia de los días
soy

tan sólo la herida
en lo alto de una tarde
una corona de espinos
en el silencio
_________

Traducción al español de
Mario Martínez Sobrino:

Mario Martínez Sobrino (La Habana, 1931). Poeta, traductor y ensayista. Durante más de veinte años ejerció la diplomacia. Ha publicado los siguientes poemarios: Poesía de un año treinta y cinco (1968), Cuatro leguas a La Habana (1978), Tarde, noche, otro día (1982), Mientras (1992), Dueño del terror (1992), Largo verano (México, 1995), Cabellera de un relámpago (1998), Helechos (2001), y Figuras de tormenta (2004). A este último le fue otorgado el Premio Nicolás Guillén de ese año. Compiló, tradujo y publicó en 2005 una antología del poeta brasileño Ferreira Gullar, titulada Todos te buscan. Poemas suyos han sido traducidos al alemán, francés, portugués, inglés, ruso, serbio-croata y húngaro, y han sido incluidos en antologías de Cuba y del exterior. Colabora en revistas nacionales y extranjeras. Actualmente tiene en preparación el poemario “Aguas varias”.
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Nota del traductor: jaboticaba, Myrciaria cauliflor o Myrtus cauliflora.
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A ilustração é do pintor mexicano Francisco Toledo
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Contra a nova ortografia (2)

¿ ?

A língua - e a poesia - tem seus ditadores. Ditadores ordenam, nunca perguntam. Se perguntassem, teriam se deparado com um problema fundamental de nossa idioma: o ponto de interrogação. E teriam feito como os espanhóis: a interrogação no inicio e no fim da frase. Para evitar os sustos, quando só percebemos, no final da leitura de um longo período, que se trata de uma pergunta. Os ditadores da língua esquecem que ela não tem apenas fala: também tem ouvidos.
¿ ?

quinta-feira, 2 de abril de 2009


contra a nova ortografia...
O voo sem o acento ^^ arranca a asa do pássaro...

quinta-feira, 19 de março de 2009



Em dezembro de 1985, o poeta Gerardo Melo Mourão tomou a iniciativa de publicar um número do Caderno Rio Arte (ano I, nº 4), do qual era diretor, em comemoração aos 100 anos de nascimento do poeta Ezra Pound. Publicação rara, nela um artigo assinado por Lawrence W. Chisolm: Fenollosa, Pound e Cosmopolios, retrata o extraordinário companheiro de Pound :


Fenollosa, Pound e Cosmopolios

Lawrence W. Chisolm

A vida de Ernest Fenollosa foi, por excelência, o romance da erudição moderna. Esta afirmação de Pound, uma generalização típica, é perfeitamente válida aqui. Apesar de que Pound só conhecia na época as grandes linhas da carreira de Fenollosa, pesquisas posteriores confirmaram esta opinião. Fenollosa, no Japão de 1880, teve oportunidades realmente extraordinárias: o encontro de duas grandes culturas abria possibilidades que se pode qualificar de românticas. Ele começou por ser o primeiro professor de filosofia ocidental em Tóquio, depois se tornou Comissário Imperial das Belas Artes. Ele teve a sorte de explorar a história da civilização sino-japonesa como um imenso terreno baldio (os ocidentais a ignoravam) e de construir sua próprias teorias sobre seu desenvolvimento. Ele teve que auxiliar-se de uma erudição japonesa tradicional ainda longe do conceito histórico de evolução, mas sua autoridade de professor ocidental conduzindo uma renovação da arte nacional, lhe permitiu um acesso privilegiado às obras de arte. Só durou um curto período, do qual se aproveitou. Seu trabalho o obrigava a substituir toda uma equipe de especialistas. Foi arqueólogo, perito, pintor, crítico, professor, poeta, cantor, historiador – viveu os sonhos de uma dúzia de sábios com apenas trinta anos. Só se pode comparar tal aventura à descoberta de Tróia por Heinrich Schliemann, ou à redescoberta da escultura grega por Winckelmann. (Um historiador japonês chamou Fenollosa de Winckelmann do Japão.) Suas expedições não tiveram nenhum eco no Ocidente, pois sua admiração pelas civilizações ia de encontro a um etnocentrismo muito poderoso na época. Fenollosa foi então um personagem célebre no Japão dos Meiji, mas ficou quase desconhecido no Oeste e morreu numa quase obscuridade e a parte mais importante de sua obra só foi publicada depois de sua morte. Trabalhou toda sua vida para um renascimento artístico no Japão e nos Estados Unidos; até obteve alguns resultados, mas sua visão de uma civilização mundial em plena evolução se revelou prematura. O entusiasmo de Pound foi ainda aumentado pelo prazer de descobrir um gênio desconhecido, como ele, profeta americano ignorado pelo seu país e por seus contemporâneos, como ele, prometido à imortalidade – analogia asseguradora e puro conto de fadas.
A vida pessoal de Fenollosa e suas origens familiares nos impressionam igualmente pelos seus lados romanescos. Ernest Francisco Fenollosa foi ‘talvez’ um descendente direto desste Alvarado, tenente de Cortez no México, que tinha se casado com a filha do rei Tlasclan. O pai de Fenollosa, Manuel, foi prodígio musical em Málaga, antes de emigrar para Salem, Massachusetts; sua mãe, Mary Silsbee, vinha de uma família de navegadores que faziam a rota da China. Fenollosa cresceu no Salem dos anos 1850 a 1860, embalado por histórias sobre o sol espanhol e os tesouros do Extremo-Oriente. Sua mãe morreu quando ele tinha treze anos. Seu pai suicidou-se doze anos mais tarde. Então ele se casou com o seu amor de infância e levou a mulher para o desconhecido, ao Japão. A sorte lhe sorri, e quando ele voltou para Boston, em 1890, era um homem próspero e cheio de futuro. Mas arruinou sua carreira fugindo com uma jovem mulher em direção a uma nova vida de sábio errante. Produziu então as suas obras mais originais, mas foi interrompido por uma doença repentina. Suas cinzas repousam no Japão, perto de um templo budista de que gostava, sobre as colinas que dominam o lago Biwa.

segunda-feira, 2 de março de 2009


Canto dos emigrantes


Quando cheguei ao Recife, depois de dez anos de ausência, fui encontrar meu amigo Orley Mesquita na Casa da Cultura, onde trabalhava. Deu-me um livro de presente. Na capa, um homem com a calça molhada de urina, preso pelo braço por um policial munido de cassetete. Era o Noticiário, de Alberto Cunha Melo, cuja poesia me causou mais impacto do que a fotografia. Surgia, naqueles anos – e todos nós sabíamos disso – um dos maiores poetas de nossa geração.
Quando fez sua grande viagem, em outubro de 2007, encontrava-me na França, em Nantes. Numa leitura de poesia, na sala Pannonica – especializada em jazz, mas onde a Maison de la Poèsie realiza seus eventos – li o poema clássico de Alberto, Os emigrantes. Fiz minha leitura em português e o poeta Bernard Bretonnière encarregou-se de ler a tradução francesa de Renaud Barbaras. O silêncio que se fez depois me levou a escutar um leve barulho, que ainda não sei se era vôo de pássaro ou o eco longínquo do último trem de Joaquim Cardozo subindo ao céu... Lembrei de uma das últimas vezes que avistei Alberto. Nossos encontros eram raros e se davam sempre na Biblioteca Pública, onde ele dirigia a seção de obras raras. Disse-lhe que entre seus livros eu preferia Noticiário. Também era sua opinião, disse-me. Falamos de Horácio, das odes de Horácio, um de seus poetas preferidos. E por cima de seu ombro li – como o fazia a cada vez que voltava à Biblioteca –, um de seus mais belos poemas, Seção de obras raras, emoldurado na parede da sala onde trabalhava. E assim deveria estar em todas as bibliotecas públicas do país.


Canto dos emigrantes
Alberto Cunha Melo

Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.
De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.

Chant des émigrants

Avec leurs oiseaux
ou le souvenir de leurs oiseaux,
avec leurs enfants
ou le souvenir de leurs enfants,
avec leur peuple
ou le souvenir de leur peuple,
tous émigrent.
D’un moment à l’autre du temps,
d’une plage à l’autre
de l’Atlantique,
d’une chaîne à l’autre
de la cordillère,
tous émigrent.

Pour le corps de Bérénice
ou le cœur de Wall Sreet
pour le dernier temple
ou la première dose de poison,
pour l’intérieur de soi
ou pour tous, pour toujourstous émigrent

(tradução de Renaud Barbaras)

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A ilustração é o Angelus Novus, de Paul Klee.

Bruxelas, de Domingos Alexandre

Edson Nery da Fonseca me perguntou quem era o autor de um belíssimo poema que ele havia lido, intitulado Bruxelas e eu lhe respondi que era Domingos Alexandre. Sugeri que os dois se conhecessem. O que foi feito. A mídia literária fashion de Pernambuco tem deixado de lado nomes como o de Domingos Alexandre, cuja cultura e domínio poético o situam entre os melhores poetas brasileiros contemporâneos. Enquanto isso, ele continua a estudar línguas, sua distração predileta, e a escrever poemas, dos quais Bruxelas é uma pequena mostra.

Bruxelas

A Esman Dias

Escurecia e o dia era tão frio
que cada rua era um desvão sombrio
e nossos passos pelo calçamento
num compasso de mudo desalento
soavam como fuga para o Eterno
ante o cerco sem fim daquele inverno.
As pessoas envoltas em seus mantos
passavam numa profusão de espantos
perdendo-se, de vez, por trás dos muros
em busca de lugares mais seguros
e o céu baixava com indiferença
a nublada carranca. A noite imensa
sem coorte de estrelas e sem lua
caía bruscamente sobre a rua.
E eu seguia sem rumo e sem saída
na noite que inundava minha vida.

Sob os arcos de um velho monumento
gemia um vagabundo sonolento
e o vento uivando para todo lado
passava como um lobo esfomeado.
Naquela noite minha solidão
se arrastava ao meu lado como um cão
que embora exposto à dor e ao abandono
se recusava a abandonar o dono.
E eu, desterrado e, ali, vagando a esmo,
carregando esse espectro de mim mesmo,
caminhava sob a garoa fria
que doía nos ossos e feria
com as pontas dos dedos o meu rosto
aumentando-me a chaga do desgosto
numa Bruxelas para sempre hostil,
a centenas de léguas do Brasil.

A ilustração é do pintor belga Paul Delvaux (1897-1994).

domingo, 1 de março de 2009




Eugenio Montale

Forse un mattino andando in un’aria di vetro...

Talvez uma manhã andando em ar de vidro,
árido, voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada a minhas pés, o vazio detrás
de mim, com um terror de ébrio.

Depois, como num quadro, acamparão de chofre
árvores casas colinas, para o engano costumeiro.
Mas eis que será tarde: e eu andarei mudo,
entre os homens que não se voltam, com meu segredo.

A propósito desse poema de Eugenio Montale, escreveu Ítalo Calvino: “O ar-vidro é o verdadeiro elemento dessa poesia, e a cidade mental em que a situo é uma cidade de vidro que se faz diáfana até desaparecer. É a determinação do meio que desemboca no sentido do nada (enquanto em Leopardi é a deterinação que atinge o mesmo efeito). Ou, para ser mais preciso, existe um sentido de suspensão, do ‘Talvez certa manhã’ inicial, que não é indeterminação mas equil[íbrio atento, ‘andando em ar de vidro’, quase caminhando pelo ar, no ar, no frágil vidro do ar, na luz fria da manhã, até que não nos damos conta de estar suspensos no vazio” (...).”

CALVINO, I. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras. 2007. p. 223.