terça-feira, 18 de maio de 2010


A foto rara de Rimbaud

No dia 15 de abril, o jornal francês Le Figaro, publicou a fotografia de um grupo de pessoas no Hôtel de l’Univers, em Áden. A foto em si - encontrada num lote de documentos comprado por dois sebistas franceses, Alban Caussé e Jacques Desse -, não teria tanta importância. Acontece que um dos dos personagens retratados na fotografia é nada menos do que Arthur Rimbaud, o poeta das Iluminações. Trata-se da única foto de Rimbaud adulto, período em que ele passou a viver na Abissínia. O jornal informa que, em artigo publicado na revista Histoires Littéraires, Jean-Jacques Lefrère, biógrafo do poeta, e Jacques Desse observam que, tal como no quadro pintado por Fantin-Latour (no qual Rimbaud aparece ao lado de Verlaine), na fotografia descoberta "todo seu ser parece protestar contra sua integração nesse ritual burguês de sessão de fotografia de grupo, à qual, no entanto, ele não conseguiu escapar"...

http://www.lefigaro.fr/livres/2010/04/14/03005-20100414ARTFIG00782-rimbaud-la-photo-retrouvee-.php
 
O primeiro escritor


Vivemos num país de muitos países, de muitas literaturas. Por isso, acabamos por desconhecer escritores de outras regiões.
É o caso de Álvaro Maia, é o caso do Amazonas. Além de escritor e poeta, Álvaro Maia foi governador do Amazonas por mais de dez anos, senador durante três mandatos.
Assis Chauteaubriand o considerava um dos maiores escritores da Amazônia e do Brasil. Conta que ao ouvi-lo discursar, certo dia, observou que o “tocante e misterioso antepassado” daquele poeta amazonense devia ser um mujique da estepe russa.
O poeta amazonense tinha algo, conforme acentuou o jornalista, de personagem de Tolstoi. Mas seus antepassados chegaram tangidos pela seca. Seu pai foi obrigado a trocar o Cariri cearense pelos altos seringais do Béem, nos campos gerais do Humaitá. Foi na época em que a expansão da borracha arrastava, então, milhares de sertanejos para o Inferno Verde, embarcados nos porões de navios do Lóide Brasileiro, mar acima, e nas “gaiolas” pelos rios do Amazonas, rio abaixo. Faltava apenas o chicote do feitor, conforme narra Álvaro Maia. Porque, segundo ele, “a nostalgia dos sertões, mesmo crestado pelas secas, era o banzo dolorido, que não deixava de curvar as cabeças do rebanho humano”.
 Despejados nos seringais – como o do rio Madeira, onde nasceu, os sertanejos eram submetidos a um regime de exploração implacável. Euclides da Cunha, em anotações que fez durante sua missão no Alto Purus, descreveu como a “mais poderosa organização de trabalho que ainda engendrou o mais desaçamado egoísmo”.
Naquele mundo de criminosos, aventureiros e místicos – elementos que costumam povoar os grandes desertos – onde se mesclavam lendas amazônicas e tradição nordestina, nasceu a literatura de Álvaro Maia. Ali, o ouvido atento do escritor registraria as histórias que iriam compor livros como Gente dos Seringais e Beiradão.
A prosa de Álvaro Maia e pertence à linhagem da literatura de um Ferreira de Castro, de A Selva, ou de um Alberto Rangel, de O Inferno Verde.
Quando eu era jovem, Álvaro Maia visitou o Crato. Veio rever a terra de seu pai, visitar parentes. Lembro-me dele, da conversa em almoço na casa de meu pai, do qual era parente, em torno dos pratos da terra (o arroz de pequi, o baião de dois, o doce de buriti...). Nada de literatura. O assunto era o destino da parentela, a situação das terras da família, o futuro político do antigo governador do Amazonas...
Só depois, vieram os livros pelo correio, com dedicatórias ao meu pai. E eu os li com a curiosidade de quem havia conhecido pela primeira vez um escritor...
***

segunda-feira, 17 de maio de 2010

De poeta a poeta

"Se me perguntassem: o que distingue o grande poeta?
Eu responderia:

Ser capaz de fazer o poema inesquecível.
O poema que adere à nossa vida de sentimento e reflexão,
tornando-se coisa nossa pelo uso.
Para mim, Joaquim Cardozo, entre os muitos títulos de criador,
se destaca por haver escrito
o longo e sustentado poema “A Nuvem Carolina”,
que é uma de minhas companhias silenciosas de vida."
(Carlos Drummond de Andrade)

P.s.: A ilustração é A cidade dos sonhos, de Paul Klee.

domingo, 16 de maio de 2010

Calvino e Hemingway


Quando lemos Italo Calvino – um dos mais brilhantes escritores e ensaístas do século que passou – deveríamos ter em mente que muitos de seus textos foram escritos quando ele ainda militava no PCI, o Partido Comunista Italiano. Subjacente às suas análises há, portanto, um elemento que transmite à sua escrita um viés especial: a sensibilidade dialética para observar os fatos, sua capacidade de compreendê-los dentro de um tempo e de suas marcas.
Pensei nisso ao ler o ensaio Hemingway e nós, incluído no livro Por que ler os clássicos (São Paulo: Companhia das Letras, 2007), publicado originalmente em 1954 (no Il contemporaneo I,33). Nele, Ítalo Calvino procura explicar sua admiração por Hemingway. Era a época das grandes causas antifascistas: literatura e política com certa freqüência caminhavam juntas. Depois, ao assumir uma distância crítica, Calvino vai proceder à dissecação da obra do escritor estadunidense, marcada pelo fascínio da caça, das touradas, das guerras. Pois difícil é separar a obra de Hemingway das imagens que transmitem aquela espécie de existencialismo selvagem, característica de uma certa literatura dos Estados Unidos, da qual Jack London foi outro representante inconteste.
O herói de Hemingway, escreve Ítalo Calvino, identifica-se com as próprias ações que executa, enquanto em torno dele “sempre existe algo de que quer fugir, um sentido de inutilidade de tudo, de desespero, de derrota, de morte”.
Confesso que, talvez por isso, eu nunca tenha tido o fascínio de minha geração ao ler O velho e o mar. Aquela luta desigual entre o homem e o peixe, aqueles detalhes de gestos e de pequenas ações me deixavam à espera que alguma coisa de mais importante acontecesse. Mas ao terminar a leitura do livro, lembro, tive, de fato, aquela sensação de vazio e de inutilidade de que fala Ítalo Calvino.
Calvino comenta que a não-filosofia de Hemingway é a contrapartida de sua relação com o neopositivismo norte-americano, “que propõe as regras do pensamento num sistema fechado, sem outra validade a não ser nele mesmo” e que corresponde “ao código ético-desportivo dos heróis hemingwayanos, única realidade segura num universo incognoscível”. Talvez ao crítico italiano não tenha parecido interessante efetuar paralelo entre essa literatura e a ideologia do “fordismo”, que deu sustentação ao capitalismo do país do autor de Por quem os sinos dobram. O “fordismo” tinha por objetivo a racionalização do trabalho taylorista, a padrozização e eficiência da produção de mercadorias em série. O fascínio ideológico pelo movimento e pela ação, na literatura, também transforma personagens em pequenas máquinas que vivem uma trama, mas não conseguem opinar sobre ela. Nesse aspecto, a literatura dos Estados Unidos está a alguns quilômetros de distância da literatura alemã. Mas isso é outra história...
***

sexta-feira, 14 de maio de 2010


Um túmulo no fundo das nuvens


Há livros cuja tinta de suas letras têm uma cor diferente da que sai da pena utilizada pelo comum dos mortais. A escrita ou a vida (Cia.das Letras, 1995) é um desses que nos despertam como uma má notícia no meio da noite. É de se esperar que a mesma coisa aconteça com Une tombe au creux des nuages (Um túmulo no fundo das nuvens), que acaba de ser editado pela Flammarion (Collection Climats). O autor do livro é o franco-espanhol Jorge Semprún. O título, um verso de Paul Celan, poeta judeu que se suicidou em Paris e escreveu em alemão – a língua do carrasco – alguns dos mais belos versos do século XX.
Jorge Semprún, ex-dirigente comunista, ex-resistente, deportado de Buchenwald, campo de concentração nazista, diz, na entrevista concedida ao hebdomadário francês l’Express, não ser nem espanhol, nem francês, mas apenas um deportado de Buchenwald. Na sua opinião existe sérios indícios no pensamento alemão contemporâneo de que “é possível a Alemanha romper para sempre com o que o nazismo encarnava”. Por outro lado, considera um “contrasenso insuportável” a utilização da palavra ‘holocausto’. “Extermi-nação”, segundo ele, diz tudo e pode ser compreendida em todas a línguas do mundo...

O livro Une tombe au creux des nuages (Um túmulo no fundo das nuvens) reúne a tradução de conferências feitas por Jorge Semprùn na Alemanha, em alemão, num período de vinte anos.
Quando teremos a tradução no Brasil?
 
http://www.lexpress.fr/culture/livre/jorge-semprun-je-ne-suis-ni-espagnol-ni-francais-je-suis-un-ancien-deporte-de-buchenwald_891830.html?XTOR=EPR-620
______________________________

Poesia portuguesa na Fundação das Casas de Fronteira e Alorna



O surrealismo português é tema de uma série de leituras no Palácio Fronteira, conhecido pela azulejaria do século XVII. Fomos introduzidos ali pelo poeta Nuno Júdice, que acaba de lançar o livro Guia de conceitos básicos (D. Quixote, 2010). No meu blog, incluí um de seus textos. Ontem foi a vez de leituras de poemas de António Pedro (1909-1966), muito menos conhecido entre nós do que Alexandre O’Neill ou Mário Cesariny, pertencentes ao mesmo grupo literário. Além de poeta, António Pedro foi crítico, teatrólogo, artista plástico. Circulou nos meios intelectuais de Lisboa, Londres, Paris e morou no Brasil, em 1940 e 1941. Na ocasião, sua pintura foi motivo de um ensaio de Ungaretti, o poeta italiano que na época residia em São Paulo.
Curioso, o ‘surrealismo’ do poeta António Pedro: mescla de resquícios do Simbolismo, algo de Mário de Sá-Carneiro e investidas em experiências imagéticas. Não conseguimos descobrir ainda o que diferencia o surrealismo português do seu homônimo francês, inaugurado por André Breton...

P.S. As leituras ocorrem na Sala das Batalhas, onde oito painéis de azulejos narram as oito batalhas das Guerras da Restauração (1640 -1668). Um dos leitores dos poemas é o dono da casa, muito simpático, Fernando Mascarenhas, também 13º Conde da Torre, 12º Marquês de Fronteira, 13º Conde de Coculim, 14º Conde de Assumar e 10º Marquês de Alorna...
___________________

terça-feira, 11 de maio de 2010


O ferrageiro de Carmona

João Cabral de Melo Neto

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
"Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde quero.

O ferro fundido é sem luta
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.

Existe a grande diferençado
ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.

Dou-lhe aqui humilde receita,
Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.

Forjar: domar o ferro à força,
Não até uma flor já sabida,
Mas ao que pode até ser flor
Se flor parece a quem o diga.

***

domingo, 9 de maio de 2010


A opinião de Ricardo Reis...



Entre os textos surgidos do debate teórico entre Álvaro de Campos e Ricardo Reis, dois dos heterônimos de Fernando Pessoa, encontra-se esta passagem, bem contemporânea, como quase tudo que saiu da pena do grande poeta:

“Quanto mais fria a poesia, mais verdadeira. A emoção não deve entrar na poesia senão como elemento dispositivo do ritmo, que é a sobrevivência longínqua da música no verso. E esse ritmo, quando é perfeito, deve antes surgir da ideia que da palavra. Uma ideia perfeitamente concebida é rítmica em si mesma; as palavras em que perfeitamente se diga não têm poder para a apoucar. Podem ser duras e frias: não pesa – são as únicas e por isso as melhores. E, sendo as melhores, são as mais belas.
De nada serve o simples ritmo das palavras se não têm ideias. Não há nomes belos, senão pela evocação que os torna nomes. Embalar-se alguém com os nomes próprios de Milton é justo se se conhece o que exprimem, absurdo se se ignora, não havendo mais que um sono do entendimento, de que as palavras são o torpor.”


(in Pessoa, F., Obras, vol II. Porto: Lello & Irmãos Editores. 1986. p.1075.)
_______________________________________________

sexta-feira, 7 de maio de 2010


Nuno Júdice

No dia 5, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, num encontro denominado Tordesilhas, reunindo poetas portugueses e brasileiros, Nuno Júdice leu o seguinte poema, de seu último livro Guia de conceitos básicos, publicado pela editora D. Quixote, este ano:


Uma reflexão sobre a beleza eterna, interrompida pela visão do efêmero

Nuno Júdice

A harmonia que, para os clássicos, exprimia a relação
das partes com o todo, atravessou os milênios sem alterar
o equilíbrio do homem no centro da sua esfera. Esse
homem, com a sua representação simétrica, define-se
a partir de um universo que tem limite
na compreensão divina da matéria
e do espírito. E poderia continuar assim, se
não ouvisse um copo a partir-se no fundo
da casa – alguém que se distraiu, e que rompeu,
de súbito, o meu raciocínio. Ao mesmo tempo,
porém, descobri que nada do que eu pensava
era original; e só ao apanhar do chão os vidros
partidos, um brilho breve no seu contacto com
a luz me fez pensar que, afinal, a harmonia
também nasce da destruição, e o centro da esfera
desloca-se para o fragmento que seguro com
os dedos, antes de o deitar para o lixo.
______________________________

domingo, 2 de maio de 2010

Reler Cesare Pavese

Verrà la morte e avrà i tuoi occhi -
questa morte che ci accompagna
dal mattino alla sera, insonne,
sorda, come un vecchio rimorso
o un vizio assurdo. I tuoi occhi
saranno una vana parola,
un grido taciuto, un silenzio.
Cosi li vedi ogni mattina
quando su te sola ti pieghi
nello specchio. O cara speranza,
quel giorno sapremo anche noi
che sei la vita e sei il nulla.

Per tutti la morte ha uno sguardo
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi.
Sarà come smettere un vizio,
come vedere nello specchio
riemergere un viso morto,
come ascoltare un labbro chiuso.
Scenderemo nel gorgo muti.


Virá a morte e terá teus olhos -
esta morte que agora te acompanha,
desde manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês todas as manhãs,
quando sobre ti te debruças
no espelho. Ó cara esperança,
nesse dia também saberemos
que és a vida e és o nada.

Para todos tem a morte um olhar.
Virá a morte e terá teus olhos.
Será como cessar um vício,
como avistar no espelho
ressurgir um rosto morto,
como auscultar um lábio ocluso.
Desceremos ao mudo abismo.
***