quinta-feira, 13 de janeiro de 2011


El sueño del celta: do genocídio à globalização

Chego no final das 464 páginas de El sueño del celta, o último livro de Mario Vargas Llosa. Como A Guerra do fim do mundo, trata-se de uma espécie de recriação histórica. No caso, as aventuras de um diplomata inglês, Roger Casement (1864-1916), que foi cônsul em Santos, no Pará e no Rio de Janeiro. De origem irlandesa, distinguiu-se, no início do século passado, por denunciar as atrocidades cometidas no Congo pelos esbirros de Leopoldo II, rei dos belgas, e as perpetradas no Amazonas peruano pelos exploradores da borracha. Para quem leu os dois livros é difícil não fazer a comparação. A guerra do fim do mundo pode ser mais instigante, pois levou às últimas consequências um desafio que nenhum escritor brasileiro ousou aceitar: traduzir numa obra de ficção a saga do Conselheiro – místico e mártir de Canudos – e recompor o sertão euclidiano em toda sua complexa geometria.
Mas o El sueño del celta se ocupa de outro personagem histórico não menos controvertido. Embora a história de Roger Casement se situe num contexto diferente, é tão polêmica quanto a do beato do Monte Santo. Roger Casement foi um herói dos direitos humanos avant la lettre e terminou por se envolver com grupos independentistas da Irlanda, o que lhe custou caro. Acusado de traição por suas ligações com a Alemanha, em guerra contra a Inglaterra, foi feito prisioneiro na prisão de Pentoville. Seu diário, apelidado de Diário negro, eivado de confidências pessoais, caiu nas mãos do serviço secreto inglês e foi utilizado contra seu autor, acusado de traição e homossexualismo. Há quem sustente que certas passagens foram forjadas, discussão que dura até hoje. Mas o certo é que páginas do diário serviram de argumento determinante para levar Roger Casement ao cadafalso no dia 3 de agosto de 1916.
El sueño del celta se divide em três parte (El Congo, La Amazonía e Irlanda). Nos capítulos ímpares são narrados os três meses de prisão que precederam a execução de Roger Casement. Através desses capítulos o leitor acompanha a intimidade, a angústia e as reflexões do personagem nos seus últimos momentos de vida. É através deles que Vargas Llosa explora sua visão do mundo. Os capítulos pares se desenrolam como reportagens sobre a exploração, as torturas, as chacinas praticadas contra as populações do Congo e da Amazônia peruana e a participação de Casement na fracassada Insurreição Irlandesa de 1916.
Entre A Guerra do fim do mundo e El sueño del celta mudam os cenários, mas pouco sofre a visão do escritor sobre o absurdo da condição humana. Se o paradigma de Vargas Llosa é a escrita de Flaubert – a quem dedicou todo um livro, A orgia perpétua –, é certamente inspirado em escritores como Camus que ele busca demonstrar o quanto a vida da ficção torna mais suportável, embora paradoxalmente mais pobre, nossa vida verdadeira.
Enquanto A Guerra do fim do mundo o cenário é único – o universo de Canudos – em El sueño del celta a aventura do personagem é tricontinental: o Congo (pedaço da África então sob o domínio de Leopoldo II, rei dos belgas), Iquitos e a selva peruana (onde se articulavam interesses peruanos, brasileiros e ingleses em torno da exploração dos seringais) e a Irlanda (envolvida num conflito nacionalista que teve como pano de fundo as contradições imperialistas que deram origem à Primeira Guerra Mundial).
A forma contundente com que Vargas Llosa narra certos episódios e os articula no contexto histórico da época nos oferece uma verdadeira ‘aula de história’ e um exercício de desmistificação sobre os primórdios de nosso capitalismo selvagem. Numa entrevista a El País, em 29 de agosto de 2010, respondeu que na Bélgica o rei Leopoldo II não era tratado como genocida. Ao contrário, ali havia um museu maravilhoso, apesar de se calcular que, no Congo, haviam morrido mais de dez milhões de pessoas, duas vezes mais do que no ‘holocausto’ judeu. Como no exemplo do rei Leopoldo II, vários de nossos “heróis” envolvidos em crimes contra os direitos humanos também têm seus nomes nas placas de muitas de nossas ruas e praças.
Apesar de ser considerado por muitos como um conservador, devemos à arte do romance de Vargas Llosa – entre os quais este El sueño del celta – a desconstrução dos fundamentos coloniais de nossas elites e uma escrita que abre como corte de bisturi as entranhas de nossa América. É bem verdade que sua preocupação maior é penetrar nos labirintos da condição humana para decifrar as origens do mal. Nesse aspecto, esse seu livro certamente será cotejado com outros que tratam da mesma realidade – a exploração brutal de populações nos confins do mundo –, a exemplo de O coração das trevas, de Conrad. Mas se quisermos penetrar nas entrelinhas de seus romances é possível entrever o ovo da serpente que acabou por gerar a sociedade em que vivemos. Afinal, na raiz do imperialismo dos conglomerados financeiros, que nos acostumamos a chamar de globalização, estão os resquícios da rapina e dos crimes contra a Humanidade de que tratam alguns romances do autor do tão nosso A guerra do fim do mundo.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010


Eu  também sou América

Langston Hughes

Também canto a América
Sou seu "brother".
Quando chega alguém,
Eles me mandam comer na cozinha
Mas eu rio,
Como bem,
E fico forte.

Amanhã
Sentarei à mesa
Quando chegar alguém.
Então ninguém se atreverá
A me dizer
"Coma na cozinha".

Aí eles vão ver como sou bonito
E ficarão envergonhados.

Eu também sou a América.

(Tradução de Sylvio Back, Caderno Mais!
Folha de
São Paulo, 15 de fevereiro de 1998.)


(I am the darker brother./They send me to eat in the kitchen/When company comes,/But
I laugh,/And eat well,/And grow strong.//Tomorrow,/I'll be at the table/When
company comes./Nobody'll dare/Say to me,/"Eat in the kitchen,"/Then.//Besides,/They'll
see how beautiful I am/And be ashamed--//I, too, am America.)

Apenas 37 anos nos separam dessa foto. Feliz 2011.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010


Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud!

René Char

Teus dezoito anos refratários à amizade, à malevolência, à tolice dos poetas de Paris, bem como ao zumbido de abelha estéril de tua família ardenesa um pouco maluca, fizeste bem em espalhá-los aos ventos ao largo, de lançá-los sob a lâmina de sua precoce guilhotina. Tiveste razão em abandonar o bulevar dos preguiçosos, os botecos dos poetastros pelo inferno dos idiotas, pelo comércio dos astuciosos e o bom-dia dos simples.
Esse elã absurdo do corpo e da alma, essa bala de canhão que atinge o alvo fazendo-o explodir, sim, isso é de fato a vida de um homem! Não se pode, ao sair da infância, estrangular indefinidamente seu próximo. Se os vulcões mudam pouco de lugar, suas lavas percorrem o grande vazio do mundo e traz-lhe virtudes que cantam nas suas feridas.
Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud! Somos alguns dos que acreditam sem precisar de provas na felicidade possível ao teu lado.
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(Um belo e oportuno  poema de René Char para este nosso final de ano.)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O Funâmbulo

Jean Genet

Uma lantejoula de ouro é um disco minúsculo feito de metal dourado, trespassado por um orifício. Tão fina e tão leve que pode flutuar sobre a água. Às vezes, uma ou duas ficam agarradas aos cachos de cabelos de um acrobata.
Este amor – quase desesperado, mas repleto de ternura – que deves demonstrar ao teu arame, terá a mesma força desse fio de ferro que suportará teu peso. Conheço os objetos: sua crueldade, sua perversidade e também sua gratidão. O arame estava morto – mudo, cego, como quiseres – ei-lo: agora vai viver e falar.
Tu o amarás de um amor quase carnal. Cada manhã, antes de começar teus ensaios, quando ele estiver tenso e vibrante, vai dar-lhe um beijo. Pede-lhe que te suporte e te conceda a elegância e um jarrete ágil. Ao fim de cada sessão, reverencia-lhe, agradece-lhe. E quando, à noite, ele ainda estiver enrolado, guardado em sua caixa, fique com ele e o acaricie. E, então, coloca docemente tua face contra a dele.
Certos domadores usam de violência. Podes tentar domar teu arame. Mas não te fies nisso. O arame, como a pantera e, segundo se diz, como o povo, gosta de sangue. Assim, é melhor tentar domesticá-lo.
Um ferreiro – só um ferreiro de bigodes grisalhos e largas espáduas pode se permitir tais delicadezas – saudava assim, a cada manhã, sua amada, sua bigorna:
- Oh! Minha bela!
De noite, o dia já findo, sua mão calejada a acariciava. A bigorna não parecia insensível àquele gesto e o ferreiro se surpreendia comovido.
Incumbe ao arame executar a mais bela expressão possível; não a tua, mas a dele. Teus pulos, teus saltos, tuas danças – na gíria dos acrobatas, teus volteios, saltos mortais, estrelinhas etc – serão executados não para que brilhes, mas para que o arame, que jazia morto e sem voz, possa, enfim, cantar. E, assim, ele te será grato: se fores perfeito em tuas atitudes, não n busca de tua glória, mas a dele.
Que o público, maravilhado, o aplauda:
_Que arame maravilhoso! Como ele suporta tão bem seu bailarino e como ele o ama!
Ao chegar a tua vez o arame será para ti o mais maravilhoso bailarino.
E, então, será o chão que te fará tropeçar!

Obs.: Pequena homenagem a Jean Genet no seu centenário. A ilustração é de Giacometti.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

De orquídeas

Orquídea (Dendrobium anosmum) medalha de bronze na XXXI mostra de orquídeas da Associação dos Orquidófilos de Pernambuco, realizada entre os dias 15 e 17 de outubro. A orquídea foi cultivada numa coité (Crescentia cujete), idéia de Sônia Lessa Norões.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Um grande espetáculo

Século XXI. O mundo estarrecido com 33 homens soterrados a mais de 600 metros de profundidade, em discutíveis condições de trabalho, numa mina falida, em pleno deserto de Atacama. O Chile não é apenas país de terremotos. É também o de massacres de mineiros. Permanece vivo na memória nacional o famoso episódio da matança de Santa María de Iquique, quando cerca de 3.000 operários foram executados pelo exército chileno. Foi em 1907. Mas, desde então, o que terá mudado? O presidente recém-eleito, magnata ligado às multinacionais, entendeu a situação e agiu com presteza: tudo transformou num grande espetáculo, no qual caberia a ele o principal papel. Os 33 operários certamente passarão de heróis a cobaias. Pois é preciso saber o quanto o homem suporta, para que possa ser arrancado da terra o metal que serve para fabricar os instrumentos de morte e para alicerçar um modelo de desenvolvimento desenfreado, do qual não podemos  conceber o fim.
Na noite do resgate destes 33 mineiros chilenos, restava ler Pablo Neruda, no seu Canto Geral, traduzido  por Paulo Mendes Campos.


Era já alta noite, noite profunda,
como o interior vazio de um sino.
Ante meus olhos vi os muros implacáveis,
o cobre derruído na pirâmide.
Era verde o sangue destas terras.(...)

As vértebras do cobre estavam úmidas,
descobertas a golpes de suor
na infinita luz do ar andino.
Para escavar os ossos minerais
da estátua enterrada pelos séculos,
o homem construiu as galerias
de um teatro vazio.
Porém a essência dura,
a pedra em sua estatura, a vitória
do cobre fugiu deixando uma cratera
de ordenado vulcão, como se aquela
estátua, estrela verde,
fora arrancada ao peito de um deus ferruginoso
deixando um oco pálido socavado nas alturas.

sábado, 2 de outubro de 2010

No caos, a compaixão
(sobre Retratos imorais, de Ronaldo Correia de Brito)

Um homem de meia-idade, de costas, metade do corpo emergindo de uma água parada, mergulhado em si mesmo, indiferente a uma escada fincada à sua direita e a algumas rochas à esquerda. É a capa de Retratos imorais, o mais recente livro de Ronaldo Correia de Brito. O homem esquece a salvação – escada e pedras – e olha para baixo: talvez o próprio reflexo no espelho da água. Não uma água ameaçadora; no entanto, nela há algo de putrefato, alguma coisa que nos faz pensar no padecimento ou na resignação. O fio de prumo dos contos de Retratos repousa sobre essa superfície plana de um líquido sob a qual perpassa a ‘imoralidade’ dos retratos de seus personagens, aparentemente – mas só aparentemente – tão díspares quanto o médico do conto intitulado Catana ou o paraplégico de Homem folheia álbum de retratos imorais.
Capa e título do livro anunciam um con-texto julgado desconfortável por algumas resenhas, pois é susceptível de tocar quem não se acostumou aos golpes do mal e do absurdo distribuídos, desde muito, por autores como Dostoievski, Camus ou Kafka. Não é por acaso que o autor de O processo é sempre lembrado para apadrinhar livro que se desvie da tutela de certa literatura déjà vu e de cujo núcleo infernal fazem parte o ‘imoral’ ou o ‘absurdo’ Retratos imorais certamente intimidará alguns leitores, porque se situa nessa órbita de contaminação, de infecção.
Depois de olhar a capa e de ler o livro, vem a pergunta: de onde nasce a aflição desses contos, esse ‘desconforto’ que toca a susceptibilidade de alguns resenhistas? Choca a constatação de que o absurdo se parece demais com nosso cotidiano, as situações vividas pelos personagens brotam diretamente de nossas ruas, apartamentos ou hospitais, talvez de nossas próprias casas. Além disso, essas circunstâncias são transfiguradas na narrativa por uma espécie de ótica que inverte as imagens e depois as tinge de cores bizarras: fotografias feitas para nos alcançar com um soco de direita, não para serem pregadas nas paredes, à guisa de lembrança.
No último conselho de seu decálogo sobre a construção do conto, um de seus mestres, o uruguaio Horácio Quiroga, escreveu assim: “Conta como se teu relato não tivesse mais interesse do que para o pequeno ambiente de teus personagens, dos quais tu poderias ter sido um. De nenhum outro modo se obtém a vida do conto”. De fato, somente num ‘pequeno ambiente’ é possível situar o leitor, transformá-lo num cúmplice. A vida nos contos de Retratos imorais transcorre nesses espaços exíguos, onde personagens se debatem em situações quase sempre violentas, até esbarrarem numa forma de impotência ou de resignação. Quando o narrador, no conto Pai abençoa filho, lembra que “todas as experiências do homem são de algum modo análogas”, essa única frase justifica as referências recorrentes do autor ao Eclesiastes, a Shakespeare ou ao Livro das mil e uma noites. Se não há novidade no que diz respeito aos grandes temas que perpassam as histórias humanas, se estamos fadados a nos debater entre a incapacidade de revolta e o infortúnio, resta ao filho mais novo repetir ao pai o pedido da bênção ancestral, que é a repetição do ciclo, a espiral que finda em si mesma. Essa impotência, percebida nas entrelinhas de cada conto, é algo intolerável ao individualismo burguês, que se imagina infenso a qualquer contágio e só consegue se abismar com o inevitável quando lhe chega a ponte de safena ou alguma forma de câncer. Pois, para ele, é imperdoável a história sem herói, o conto que se inicia com um personagem derrotado.
Avanço o olhar na perspectiva dos personagens, para não tratar do autor; ele pode restar à sombra quando o livro está pronto e assume destino próprio. É nesse instante que ele, o autor, deve se sentir feliz: seus personagens passam a caminhar com tanta autonomia que as interpretações biográficas deixam de ter papel relevante. Milan Kundera escreveu que existe apenas um método para compreender os romances de Kafka: lê-los, não tentando buscar nos personagens o retrato do autor, mas se esforçando para acompanhar esses personagens com o máximo de atenção, através de seus comportamentos, opiniões, pensamentos. Creio que esse é um bom método a seguir no caso de Retratos imorais. O sertão desfigurado do romance Galileia, de um ‘regionalismo’ às avessas, é mero cenário para permitir uma sorte de fuga de Bach entre vozes destoantes. Em Retratos, a arquitetura urbana da casa do psicanalista Rodolfo, atravessada por uma rede, pode ser percebida como oficina onde se fermenta a alienação de uma intelectualidade provinciana, da qual nem sequer escapa o serviçal Francisco.
Encontramos em alguns dos textos de Retratos imorais uma linguagem de toque híbrido – pequenos retalhos de teatro ou de cinema – em contos como Mães em fuligem de candeeiro ou Homem-sapo. Esse hibridismo, que nada tem a ver com questões de gênero, auxilia a organização de nosso olhar, o olhar do leitor, em torno de episódios aparentemente simples, mas que transcorrem numa circunscrição do espaço que confere ao conto sua conformação esférica, para utilizar a ideia de Cortázar. Nessa esfera, penetramos; nela, quedamos presos, como quase todos os personagens, sem claraboias de onde enxergar a salvação.
E aí se encontra, a nosso ver, o nó górdio da literatura do autor de Retratos imorais: a busca da salvação de quem está inexoravelmente fadado a sucumbir. No final de cada conto, o leitor depara com uma espécie de perplexidade, de interrogação, que o ameaça como lâmina ao sol. Mas se nada tem resposta é porque – maktub – tudo está escrito. Como no texto Mãe numa ilha deserta, quando a luz do farol se apaga de repente, falta petróleo, a escuridão desaba sobre a mãe e o filho e não resta mais do que, ao longe, o registro de um acordeom. O cristianismo tolstoiano dessa literatura abre com brutalidade a ferida para nos acordar a compaixão.
Tem alguma coisa a ver com a natureza dos contos de Retratos imorais a frase com que Albert Camus abre seu ensaio Filosofia e romance: “Todas essas vidas mantidas no ar avaro do absurdo não saberiam como se sustentar sem algum pensamento profundo e constante que as anima com sua força”. E, em seguida, o autor de O mito de Sísifo conclui que ao sermos obrigados a conviver com esse absurdo, a alegria absurda por excelência é a criação. Talvez a alegria da criação de Ronaldo Correia de Brito consista em ressuscitar personagens de seu dia a dia, para os quais, se não há a salvação, pelo menos poderá haver alguma espécie de misericórdia.

(in Correio Braziliense, 02.10.2010)

sábado, 28 de agosto de 2010

Aula de física

Ronaldo Costa Fernandes

O pêndulo é suspenso pela dúvida
que transforma em dois o que é um.
O pêndulo e seus braços
que marcham sem sair do lugar.
Seguro à dúvida,
não sou dois nem um,
marcho parado,
sem conta que me dê jeito,
sem física que me conforme.


Obs.: Ronaldo Costa Fernandes, recolhido no seu canto, em algum lugar de Brasília, é um dos grandes poetas brasileiros. Pouco importa se ele escreve: Sou um sujeito antes só\que mal acompanhado ando de mim. Acompanhemos sua poesia... (A ilustração é de Max Ernst).

quinta-feira, 19 de agosto de 2010


De biblioteca...

- Vim procurar uma palavra perdida num texto de Joaquim Cardozo, no Livro do Diário...
O poeta me recebe num exíguo escritório, entre arquivos de aço, recortes, livros ensebados.
Na parede, um poema de sua autoria: “Seção de Obras Raras”. Deveria ser fixado nas paredes de nossas bibliotecas. Fora, o parque Treze de Maio: galhos e raízes rasgam céu e terra, num emaranhado de vísceras: poemas de Alberto Cunha Melo.
Queixa-se dos vencimentos, fala de biblioteca, discursa sobre Horácio, um de seus preferidos.
E eu, que procurava apenas uma palavra fugida de um ensaio do poeta do Signo Estrelado sobre Manuel Bandeira.
Não a encontrei. O tipógrafo havia podado uma das frases. Não era o x da equação de um poema de Cardozo, mas qualquer coisa que faltasse a algum de seus textos era tijolo faltante de uma casa.
- E agora, Poeta?
- Pode inventar.
Toda palavra é uma mentira de Deus.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Uma anotação sobre tradução

Falhas de tradução podem levar facilmente a equívocos de interpretação. Exemplo: uma tradução do ensaio O narrador, de Walter Benjamin (Obras escolhidas. Magia e técnica, arte e política. Ed. Brasiliense, tradução de Sergio Paulo Rouanet).
Certas passagens dessa tradução brasileira são quase incompreensíveis. No início do capítulo XVII do ensaio está escrito:“Poucos pensadores tiveram uma afinidade tão profunda pelo espírito do conto de fadas como Leskov”. (p. 216) Não conheço a língua alemã, mas o texto francês, traduzido e revisado pelo próprio Benjamin (Écrits français. Gallimard) diz assim: “Poucos narradores parecem tão profundamente impregnados do espírito dos contos quanto Leskov” (*). Trata-se apenas de uma frase, ou de uma palavra, mas ela muda completamente o sentido do ensaio. Benjamin não poderia se referir a “conto de fadas”, pois não são contos de fadas aqueles veiculados no passado pelos artesãos, comerciantes ou marinheiros, arquétipos de que trata O narrador. O próprio texto da tradução se contradiz, quando se refere a ‘conto de fadas’ numa página e, logo em seguida, faz referência a personagens como “o tolo”, “o inteligente”, “o caçula” etc.
Em outra passagem ( p. 201) do mesmo ensaio, lê-se: “Na riqueza dessa vida e na descrição dessa riqueza, o romance anuncia a profunda perplexidade de quem vive”. Na tradução (insistimos, feita pelo próprio Benjamin), a palavra correta não é perplexidade, mas abulia, que significa falta de vontade, de ânimo para se tomar decisão, o que é bem diferente de perplexidade.
Para um autor como Walter Benjamin, (este seu ensaio é intensamente analisado nas universidades), filósofo para quem cada palavra pode encerrar um conceito, cada pequena observação um pensamento original, a tradução imperfeita é susceptível de comprometer a formulação de uma teoria ou de tornar incompreensível aquilo que ele conseguiu expressar com o máximo de clareza.
(*) Peu de narrateurs paraissent aussi profondément imprégnés de l'esprit des contes que Leskov.(p. 291)