quarta-feira, 13 de maio de 2009



Letras

Conrado Falbo

não caminho
por altas literaturas
quando escrevo

só posso
falar
do que conheço

cotidiano miúdo
insignificâncias
de estimação

apenas
perto do chão
estou à vontade
para minhas
rasteiras
palavras.

quando escrevo
não subverto:
subverso.

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Conrado Falbo, pernambucano, é uma voz da nova geração de poetas brasileiros.
A ilustração é do pintor francês Alfred Manessier.
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O sol se põe em São Paulo...

Comecei o primeiro capítulo de O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras) com boa vontade e aguardei um prosseguimento interessante. Sobretudo quando, no fecho do capítulo, o narrador nota “uma pequena medalha onde estavam gravados dois ideogramas mínimos, que o movimento natural do braço a arregaçar ligeiramente o punho de seda descobriu”. Com uma frase assim pensei que o romance se armaria como Italo Calvino escreveu, idealizando uma imagem carregada de significado, numa das etapas do processo imaginativo “que parte da imagem à expressão verbal”. Nada disso acontece. Logo no segundo capítulo penetramos numa espécie de roteiro digno de novela das 8, ao qual não faltam ingredientes de um pastiche japonês: as freqüentes alusões ao suicídio, incidentes que tentam lembrar Mishima (mas cujos personagens não têm, nem de longe, a força daqueles do romancista japonês), cansativas menções de ruas de cidades japonesas, descrições de templos, alusões ao teatro nipônico e, óbvio, referências ao Genji Monogatari, monumento fundador da literatura japonesa. (Diga-se de passagem que o livro foi publicado em plena comemoração da emigração japonesa no Brasil.)
Diremos do livro o que Ortega y Gasset comentou sobre uma certa arte nova: “Das obras jovens procurei extrair sua intenção, que é o substancioso, e não me preocupei com a sua realização. Quem sabe o que dará esse nascente estilo? A empresa que acomete é fabulosa – quer criar do nada. Eu espero que mais adiante se contente com menos e acerte mais”.

terça-feira, 12 de maio de 2009


Uma estética distante

Encontro com o artista plástico senegalês Mohamadou Ndoye, cujo universo pictórico retrata o emaranhado de ruas da periferia de Dacar, Senegal, onde circulam automóveis estranhos, paisagens em que se misturam antenas de televisão, roupas dependuradas em cordas, casas de papelão e areia a varrer vidas e objetos. Seu desenho animado Train Train Medina foi premiado em vários festivais. Preocupação: mesmo na pobreza é possível o aprendizado de uma estética. Dacar e Recife, face a face e quão distantes! Penso no Recife do turismo brega, das ruas afogadas em anúncios, dos artistas fechados em seus ateliês, das torres cada vez mais altas despejando suas sombras sobre o lixo das favelas, nas caixas de som ferindo nossos tímpanos, nas ruas onde o caminhar transformou-se em desafio. E nenhum artista para expressar nossa tragédia urbana...

De Minha formação no Recife

Gilberto Amado

Nos anos de maturidade, minha posição diante de Rui Barbosa sofreu os mesmos altos e baixos. Destes, o ponto mais fundo foi o discurso no enterro de Machado de Assis no qual, sem necessidade nenhuma, Rui Barbosa falou sobre a “‘bondade” do autor de Quincas Borba. Por que, meu Deus! atribuir uma virtude não provada ao autor de uma obra que se uma característica era a de não crer na bondade humana? A gratuidade de manifestações tais me fazia sofrer. Pensei, a propósito deste discurso, em Capitu que, ainda meninota, Machado de Assis pintava como uma “‘pirata”, e nos malucos enfermos de quem o artista cru e cético sorria. Há certas imprecisões que fazem mal. Machado de Assis não era ruim; não devia ser. Mas era a bondade traço a ser assinalado no homem seco e discreto de que saíram tantas obras em que tudo se pode ver menos a bondade? Foi esta a última raiva que me deu o maior dos brasileiros.

in Minha formação no Recife. Rio de Janeiro: José Olympio Editora. 1955.
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Pequeno comentário

Lendo os comentários de Julien Gracq sobre Proust penso na obra de Pedro Nava, na qual a memória se impõe sobre a ficção de forma tão poderosa. E me pergunto em que medida essa sede de beber na fonte das lembranças diante do limbo da criação não teria sido, em última instância, um dos motivos do suicídio do escritor mineiro. De fato, a ele faltava esse ‘tremblement d’avenir’, o tremor de futuro, de que fala Gracq. É verdade que ao ler Baú de ossos sentimos o prazer da crônica a nos revelar detalhes e a ressuscitar pequenos prazeres. Mas sentimos também que lhe falta a faísca que lavra o incêndio dos grandes escritores...

Vida aos árabes!

Aaron Shabtai

Há dois dias em Rafi’ah
nove árabes foram mortos;
ontem, outros seis
foram mortos em Hebron.
E hoje, apenas dois.
No ano passado,
enquanto manifestávamos
ao sair da Rua Shenkin
um homem numa moto
gritou para nós:
“Morte aos árabes!”
Na esquina da Rua do Trabalho,
diante do Mercado Bezalel
e na esquina de Brograshov:
“Morte aos árabes!”
Durante todo um ano
esse poema ficou no chão,
sobre a calçada
da Rua King George.
Hoje, eu o apanho e componho
seu verso final:
“Vida aos árabes!”
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Aaron Shabtai é considerado o maior poeta israelense. Traduzi o poema do francês. No site, a seguir, ele pode ser escutado em hebreu, recitado pelo autor.


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quinta-feira, 7 de maio de 2009


Hélio Pellegrino

De conversa com Fábio Andrade, recordamos o belíssimo livro de Hélio Pellegrino, Minérios domados, publicado pela Rocco, em 1993. Nascido em 1924 e falecido em 1988, psicanalista, escritor, Hélio Pellegrino não pode cair no estranho “paradigma do esquecimento” que rege a história brasileira. Catei dois diamantes de sua lavra: um poema e o trecho de uma entrevista com Clarice Lispector, do livro dela intitulado De corpo inteiro, também da Rocco, editado em 1999.

La Vida es Sueño


A pedra
a pedra como o fogo
com suas resinas e ramas
a pedra como o fogo
é um sonho
de pálpebras abertas.


O sonho é quando
no veludo íntimo da noite
fogo e pedra se sonham:


— as pálpebras cerradas.


Um homem chamado Hélio Pellegrino


- Diga qual é a sua fórmula de vida. Eu queria imitar.


-Há, no Diário íntimo de Kafka, um pequeno trecho ao qual gostaria de permanecer para sempre fiel, fazendo dele a minha fórmula de vida: "Há dois pecados humanos capitais dos quais todos os outros decorrem: a impaciência e a preguiça. Por causa de sua impaciência, foi o homem expulso do paraíso. Por causa de sua preguiça, não retornou a ele. Talvez não exista senão um pecado capital, a impaciência. Por causa da impaciência, foi o homem expulso, por causa dela não consegue voltar. Tenhamos paciência - uma longa, interminável paciência - e tudo nos será dado por acréscimo"

- Por que você escreve esporadicamente e não assume de uma vez por todas o seu papel de escritor e criador?


Poderia driblar essa pergunta, respondendo com uma meia-verdade - escrevo menos esporadicamente do que publico. Mas esta seria uma saída falsa, e não quero ser falso. Escrever e criar constituem, para mim, uma experiência radical de nascimento. A gente, no fundo, tem medo de nascer, pois nascer é saber-se vivo e - como tal - exposto à morte. Escrevo mais do devo para - quem sabe? - manter a ilusão de que tenho um tempo longo pela frente. A meu favor, posso dizer a você que, com freqüência, agarro-me pelas orelhas e me ponho ao trabalho. Há umas coisas valiosas nas quais acredito, com muita força. Preciso dizê-las e vou dizê-las.


- Hélio, diga-me agora, qual é a coisa mais importante do mundo?


-A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser-com-o-outro, na calma e intensa mutalidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele. Na medida em que o recebo em sua graça, conquisto para a mim a graça de existir. É esta fonte da verdadeira generosidade e do entusiasmo - Deus comigo.O amor genuíno ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo.


- Que é amor?


Amor é surpresa, susto esplêndido - descoberta do mundo. Amor é dom, demasia, presente. Dou-me ao Outro e, aberto à sua alteridade, por mediação dele, recebo dele o dom de mim, a graça de existir, por ter-me dado.


- Helio, você é analista e me conhece. Diga-me sem elogios - quem sou eu, já que você me disse quem é você...


-Você, Clarice, é uma pessoa com uma dramática vocação de integridade e totalidade. Você busca, apaixonadamente, o seu self... e esta tarefa a consome e faz sofrer. Você procura casar, dentro de você, luz e sombra, dia e noite, sol e lua...
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domingo, 3 de maio de 2009


Geração 60

Sérgio Castro Pinto

(a Carlos Aranha e Walter Galvão)

a carta branca do montilla
não era de alforria.

o papagaio era calado.

o cuba-libre nos prendia.

e em barris de carvalho
o tempo envilecia.
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Poema antológico, do poeta paraibano Sérgio Castro Pinto (Domicílio em trânsito. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983).
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sexta-feira, 1 de maio de 2009


John o inglês disse

John o inglês disse
gosto da palavra bruma
turner turva bruma
o acento amargo sob
o chicote de sol desse verão
no alto mundo das taquaras
som carmesim de uma estação
de trem ou trovão
contido num som de órgão
de Bach
gosto da palavra bruma
núcleo obscuro da saudade
I like it
álacre é o aberto
bruma o fechado
o roxo de um deus crucificado
nas santas semanas da paixão
bronze zen a retinir
sozinho
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A ilustração é colagem de um quadro do pintor inglês William Turner e fotografia dos altos de Taquaritinga.

quinta-feira, 30 de abril de 2009


Como Pernambuco tratou um de seus homens mais ilustres

ATO N. 1472, de 28 de Dezembro de 1939. – O Interventor Federal no Estado, tendo em vista o ofício do Engenheiro Joaquim Cardoso, encaminhado pelo Secretário de Viação e Obras Públicas, resolve exonerá-lo a bem do serviço público do cargo de Engenheiro-Auxiliar da Diretoria de Viação, Obras Públicas e Oficinas, por incapacidade técnica para o exercício das funções, confessada naquele documento de próprio punho.
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