segunda-feira, 5 de abril de 2010


As aberrações do “Direito de Imagem"

Alexei Bueno

O recente episódio do processo intentado contra a Editora Aprazível, em seu livro sobre o fotógrafo José Medeiros, em que representantes legais dos herdeiros de Manuel Bandeira, em verdadeira aberração postulatória, reivindicaram – e ganharam em primeira instância – o direito a retirar de circulação um livro imenso, no meio do qual há uma foto do poeta, em meio a outras pessoas, e ainda receberem indenização, é um marco do ponto a que chegou a aberração do infame conceito de “direito de imagem”, que transforma grandes figuras da nacionalidade, homens de imagem pública e notória, que como homens públicos voluntariamente viveram, em algo como marcas de roupas e refrigerantes.

Antes disso outra aberração, talvez ainda maior, foi intentada contra os proprietários do belo curta metragem “O poeta do Castelo”, realizado por Joaquim Pedro de Andrade e produzido por Fernando Sabino. Sem sequer entrar no mérito de que Manuel Bandeira nem viúva deixou, nem filhos teve, é bom lembrar que Joaquim Pedro era filho de seu maior amigo, Rodrigo Melo Franco de Andrade. Quando o poeta acedeu ao desejo do jovem cineasta de ser retratado em seu curta, ele obviamente doou a sua imagem, a sua participação, ao cineasta. Reivindicar “direito de imagem” sobre esse curta-metragem, mais de quatro décadas depois, é mais ou menos como se algum sobrinho do saudoso Maurício do Valle processasse os herdeiros de Glauber Rocha por sua participação nos quatro filmes do genial cineasta em que ele atuou. Há um princípio jurídico de grande importância, o da razoabilidade, que está sendo atropelado por todas essas aberrações. E mais: um sinal óbvio de civilização são os limites à propriedade, em nome do bem comum, inclusive o bem cultural. Maior exemplo não existe do que o tombamento. Se Ouro Preto não tivesse sido declarada Monumento Nacional nos anos de 1930, todas as suas casas seriam hoje cubos de concreto, com janelas basculantes de vidro blindex! Se há limites de propriedade para os bens físicos, por que não os haveria para bens imateriais, como as obras literárias, às vezes de muito maior importância?

O chamado “direito de imagem” representa a própria morte da cultura. Como, numa foto coletiva, às vezes com dezenas de pessoas, não se expor, ao publicá-la, à ânsia argentária de algum sobrinho-bisneto de um grande homem? Uma jurisprudência sórdida está sendo criada. E o pior, enquanto o direito à obra literária chega a 70 anos após a morte do autor, esse conceito vago de “direito de imagem” – que não significa nada e pode por isso mesmo significar tudo – não tem prazo de validade! O autor destas linhas, por exemplo, é 11º neto do célebre Anhanguera. Juridicamente, quem sabe, poderia processar algum livro didático que reproduzisse um retrato supositício de seu antepassado, morto há mais de três séculos! Como poderão trabalhar dessa maneira os críticos, os iconógrafos, os antologistas, os documentaristas?

E para escárnio maior, os responsáveis por tais processos dizem querer proteger Manuel Bandeira dos “aproveitadores”, que devem ser, provavelmente, os falecidos Joaquim Pedro de Andrade, José Medeiros e Fernando Sabino, ou os excelentes editores do livro sobre José Medeiros. Até onde vai tudo isso? Se para bens físicos pode haver o tombamento ou a desapropriação, nada se pode fazer em relação a imagens públicas de homens públicos? Pode a cultura de algum país civilizado ser entregue à chicana dos rábulas, descumprindo de forma evidente o que seria a vontade dos autores, se vivos fossem? Onde fica a razoabilidade? Onde fica a cultura brasileira em tudo isso? Entregue aos rapaces ou às mediocridades ávidas de exercer poder? Que este texto sirva como um manifesto, a conclamar todos os que trabalham com e pela cultura no Brasil.
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Esta matéria foi publicada no blog de Helio Jesuíno, de quem é tambám a feliz ilustração:



Um certo Padre Gomes

Everardo Norões


Dez horas da manhã.
Na sala de aula, duas altas janelas cortam
o claro dos céus em pedaços.
O professor profere a chamada.
O verbo é ‘proferir’; ele nunca chama: ordena.
Ele é padre, mas nada tem a ver com seus pares.
Basta ver o corte da batina, a faixa à cintura
que mais parece um obi de samurai.
Postura de quem está sempre à espreita,
aguarda o ataque.
Pronuncia os nomes, não os repete; olha a cara de cada um,
baixa a vista para o livro de anotações, escreve.
O que contam esses registros?
Depois, se não aprova o nominado,
ele o dispensa antes do início da classe.


(Comenta-se que presa à faixa não há uma katana,
o sabre japonês, mas um Smith&Wesson .38 duplo.
Única concessão que faz ao império do Tio Sam.)



Assim fala a fotografia:
cinzento é o ginásio na sua arquitetura cansativamente simétrica,
corredores de piso de mosaico, campainha para retinir recreios,
sanitários malcheirosos a lançarem seus eflúvios
sobre o amplo pátio.
O pátio:
um quadrado de terra vermelha,
onde nenhuma grama cresce, como no chão de Átila.
Às 5h30 da manhã, e durante uma hora a fio,
os alunos, na aula de educação física, aqui são tratados
como cabos de guerra pelo sargento do Tiro.
A cor da argila designa o bairro do Barro Vermelho,
lugar onde foi fuzilado Pinto Madeira, pertinho daqui.
Ainda se busca a mancha de sangue, o buraco da bala,
o sopro da última palavra.
Inútil:
tudo aqui foi destruído:
a rua de azulejos portugueses,
a calçada dos morféticos,
o piano que ressoava na rua
as lembranças de Branca Bilhar.


(A cidade conspurca com crueldade seus espectros.)



Ao lado do retângulo vermelho, a dita sala, igual a vinte outras,
com seus trinta alunos sentados em carteiras de madeira de lei.
Numa delas, as duas iniciais de um nome;
em outra, um signo-salomão, uma meia-lua ou um ferro de gado.
Nada de sugestões pornográficas ou insinuações subversivas.
Ninguém se iluda:
neste reduto da diocese não apenas se aprendem
as matérias do currículo:
aqui também se é iniciado no exercício da delação.


A aula começa.
O professor comenta a diferença entre os homens do interior
e os que ficaram pelos litorais,
a arranharem a terra como caranguejos,
dixit Frei Vicente do Salvador, ou Vicente Rodrigues Palha,
nome laico do jesuíta baiano que descreveu a vida na Colônia.
A linha de pensamento do mestre se insinua
pelos meandros do rio São Francisco.
É regida pelas observações do mais brilhante historiador
de seu tempo, Capistrano de Abreu, ateu e, para seu desgosto,
pai de uma freira que se refugiou no claustro
e fez voto de silêncio.



O curso do pensamento do professor acompanha
o do Grande Rio, desemboca no Riacho da Brígida.
Busca um Ulisses,
entre preadores de índios da Missão do Miranda, ex-Itaytera.
Um Ulisses capaz de conservar engastado o rochedo
sob os pés da Virgem da Penha,
para impedir que a Serpente não o rompa
e sejamos arrastados pela Grande Água.
Na brecha dos mitos, ele, o padre, professor, pesquisador,
vasculha nomes carreados de Sergipe, Pernambuco, Bahia,
catapultados pela Casa da Torre,
perdidos nos brejos, ribanceiras, serranias.
Onde estará nossa Ítaca?



(Como discernir na partitura do tempo o que se tornou usura da história?
Todo texto é ficção, dizem.
Nenhuma sessão da memória se repete com a fidelidade do cinema.
Apenas o cenário pode permanecer imutável.
Remontagens arqueológicas sedimentam nossos delírios e
as ruínas refeitas guardam detritos que suscitam apontamentos bizarros,
registros em cadernos esquecidos.
Pois a história, escreve José Honório Rodrigues, “não é só fato:
é também emoção, o sentimento, o pensamento dos que viveram
– a parte mais difícil dos negócios humanos”.)



Voltemos ao Padre, seu outro lado,
seu silêncio martirizado no quarto de estudos,
onde dormir é privilégio.
Aí doma seus fantasmas, suas letras.
Não tem com quem conversar, aprofundar argumentos,
buscar o verme que contamina o miolo de seu fruto,
o fruto vermelho da História.
Busca nos alfarrábios, cruza garatujas de batistérios.
E sempre Nascimento e Morte de permeio,
desmontados em árvores desenhadas em páginas coladas,
para chegar ao mais idiota descendente
de um coronel qualquer da Guarda Nacional.



O Álbvm do Seminário do Crato, de 1925
– álbvm com ‘v’, para imitar o latim da Santa Igreja –,
registra o aluno na página 202; o clérigo, na 207.
A fotografia da página 189, carcomida pela traça, revela:
batina, barrete, mas sem a capa romana
que o acompanharia durante tantos anos,
tremulante e negra sob o sol dos Cariris.
Pois assim reza o artigo 12
do capítulo III do Regulamento do Seminário Maior:
“Uma modéstia sem afetação e um porte digno
resaltem do seu todo, mormente nos actos religiosos
e quando estiverem recebendo instrucção” (sic).



É necessário lupa para recompor feições e formas.
Segundo da segunda fila, da direita para a esquerda.
A cabeça encoberta inclinada à direita;
deixa-se ver o relógio de algibeira,
quem sabe um Patek Philippe.
O rosto é magro; o nariz, aquilino, mouro;
as orelhas não se deixam passar despercebidas.
Não mira a objetiva do fotógrafo.
É uma visão para o largo,
um ar que o distingue da bonomia do grupo.
Tem um ar triste, inquieto.
Escreverá mais tarde:



“A zona é percorrida por rios secos e serranias de altura medíocre,
de platôs e faldas férteis, abrindo-se em depressões
vulgarmente conhecidas por boqueirões.
Florestas e serras de altura de mil metros, mais ou menos,
e as margens de rios, águas em lagoas, olhos d’água e cacimbas,
barreiros salgados, forragens substanciosas,
campos mimosos e agrestes ao lado de catingas,
carrascais e ilhas de cacto,
eis outra face da fisionomia natural da terra,
tudo conforme acentuou Capistrano de Abreu”.



Sempre Capistrano, o grande Mestre.
E, já assimilada, a leitura de Euclides.


Um homem sozinho atravessa a cidade:
batina negra, capa romana, faixa à cintura.
Segue o trajeto que vai da igreja da Sé ao Ginásio.
Quantas vezes terá feito esse percurso?
Saúda Tandô, sentado no meio-fio da praça.
“Em que pensa esse padre, com jeito de homem”,
se pergunta o anão?
Aqui tudo é vigiado.
A cada janela há um olho à espreita.
O padre caminha sem prestar atenção a quem passa,
nem atentar para quem se furta por detrás das gelosias.
Anda rápido para dar tempo à chamada do refeitório e,
logo depois, recomeçar reflexões e leituras.
Abrirá a porta de vidro da estante de cedro
com a chave escondida dentro do sapato, enrolada na meia.
Lembrança do regulamento, de quando era regente:
“Só poderão fazer leituras extra-programma mediante prévia
autorização do Padre Prefeito” (sic).
(As duas maiúsculas encerram o assunto.)


Equivoca-se quem pensa que sua busca tem como finalidade
cruzar ramos de famílias, desvendar mancebias,
revestir de letras de nobreza alguns filhos da terra.
Sua história tem dupla leitura:
de um lado, parece agradar a quem procura na veia
mínima gota de sangue caramuru.
Mas a outra vertente é a que mais lhe importa:
seguir os rastros do autor
de Caminhos do povoamento,
contrapor aos heróis oficiais de guerras subalternas
a saga dos anônimos.
Ou seja: catar os detritos da história,
cônscio de que o passado nunca fica para trás:
continua a vicejar entre os vivos,
como as bactérias nos corpos em putrefação.



Em 9 de janeiro de 1941, Padre Gomes,
nos Cariris, longe de tudo, ensina, pesquisa, escreve,
elabora e medita, sozinho.
Nesse mesmo dia,
sob a França ocupada e 5 dias
após a morte de Henri Bergson,
Paul Valéry pronuncia na Academia Francesa
o belíssimo elogio fúnebre ao filósofo,
de uma simplicidade que surpreende quem está familiarizado
com a escrita carregada de erudição e de refinamento do poeta.
Diz da alta figura de homem pensante que foi Bergson,
talvez um dos últimos, segundo Valéry, que teriam exclusivamente
e profundamente pensado, num mundo
em que se pensa cada vez menos:
“enquanto a miséria, as angústias, as limitações de toda espécie
deprimem ou desencorajam os empreendimentos do espírito”.
Observações sobre um homem pensante:
aplicam-se perfeitamente ao padre de Brejo Santo.


Passa o Padre Gomes e Tandô, o anão, se pergunta:
“Em que diabo está pensando esse homem?”
Somente hoje é possível compreender
o porquê daqueles passos apressados,
daquela inquietação permanente,
de sua genialidade e equívocos.



A fotografia:
não é mais necessário lupa para recompor as feições.
Não mira a objetiva do fotógrafo.
É uma visão para o largo,
um ar que o distingue do resto.
Tem um ar triste, inquieto.
Pensa num mundo mais largo, sem cadeias,
distante do jugo das genealogias,
longe de um sol que é o mesmo sol de todos os dias,
segundo Machado de Assis,
onde nada existe que seja novo,
onde tudo cansa, tudo exaure...
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Obs.: A ilustração é do artista plástico Hélio Jesuíno
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quinta-feira, 1 de abril de 2010


Ronis

Há um livrinho de fotografia que me acompanha sempre: o de Ronis, fotógrafo francês, amigo de Robert Capra. Dele me vem sempre à cabeça a imagem dessa criança que sorri, corre e carrega uma baguette debaixo do braço. Sua sombra projeta um estranho desenho sobre a calçada. O instantâneo foi feito na França do pós-Guerra, que Ronis soube registrar como ninguém. Detrás da imagem do menino, um muro enegrecido. O que há por detrás dele? Pouco importa. A criança volta para casa com um pão que é uma espécie de símbolo da França... Quantas leituras pode haver no instantâneo de um fotógrafo de gênio?
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quarta-feira, 24 de março de 2010

Editora 7Letras
Poeiras na réstia
Everardo Norões
• Assunto: Poesia
• Formato: 13x20
• Número de Páginas: 120
• ISBN: 978-85-7577-658-2
• Ano: 2010

"Alimentando-se da prosa do mundo, os versos de Everardo Norões destacam-se pela forte visualidade e uma exuberância que nos surpreende através das frestas das palavras, dos pequenos detalhes. Sua poesia, livre, não deixa limitar pelo próprio estilo, arriscando-se na exploração de novas cores, novas vozes. Ela sublinha a existência daquilo que é pequeno e imperceptível, resgatando em versos a diferença, aquilo que se perderia no esquecimento, a poeira na réstia de luz. O livro também apresenta os poemas de Everardo traduzidos em espanhol, catalão, inglês, francês, italiano e em quéchua."
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segunda-feira, 8 de março de 2010


http://apoiodenise.wordpress.com/
Quando a corrupção se insinua até mesmo nos meios literários é hora dos intelectuais se mobilizarem para combatê-la. É isso o que fazem todos aqueles que vêm apoiando a postura corajosa de Denise Bottmann, cujo blog denuncia a prática imoral de algumas editoras brasileiras. O blog apoiodenise, organizado por Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivo Barroso e Ivone C. Benedetti, veicula manifesto que merece ser assinado por quem repudia a utilização desonesta do trabalho literário alheio.
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domingo, 7 de março de 2010


Clepsidra, de Camilo Pessanha

Obra pequena; poeta grande demais.
Vale a pena ler a nova edição de Clepsidra, de Camilo Pessanha,
organizada, apresentada e anotada por Paulo Franchetti,
publicada pela Ateliê Editorial.
O livro abre com esta quadra:

Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...
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terça-feira, 2 de março de 2010


Memória

Carlos Montemayor (1947-2010)

Estou aqui, nesta casa, a sós.
Aqui estão os móveis, o ar, ruídos.
Tenho um sentimento tão transparente
como o vidro de uma janela.
É como a janela em que olhava a neve ao amanhecer,
há muitos anos, quando menino,
e colava a cara contra o cristal e compreendia toda a vida.
É um desejo em calma, como a tarde.
É estar como estão todas as coisas.
Ter meu lugar como tudo o que está na casa.
Perdurar o tempo que for, como as coisas.
Não ser mais nem melhor que elas.
Somente ser, em meio à vida,
parte do silêncio de todas as coisas.

(Estoy aquí, en la casa, a solas./Aquí están los muebles, el aire, los ruidos./Tengo un sentimiento tan transparentecomo el vidrio de una ventana./Es como la ventana en que miraba la nieve al amanecer,/hace muchos años, cuando era niño,/y pegaba la cara contra el cristal y comprendía toda la vida./Es un deseo en calma, como la tarde./Es estar como están todas las cosas./Tener mi sitio como todo lo que está en la casa./Perdurar el tiempo que sea, como las cosas./No ser más ni mejor que ellas./Sólo ser, en medio de la mi vida,/parte del silencio de todas las cosas.)
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P.S. Recebemos, hoje, comunicado de nosso amigo e poeta peruano, Odi Gonzalez, informando a morte de Carlos Montemayor, importante intelectual mexicano. Traduzi um de seus belos poemas, Memoria, pequena homenagem àquele que foi defensor intransigente da causa dos oprimidos, em particular dos povos indígenas de seu país. Na foto, à esquerda Carlos Montemayor, à direita, Odi Gonzalez.
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domingo, 21 de fevereiro de 2010

Mentes, mente

O primeiro autômato a desafiar a mente humana foi intitulado “O Turco”. A geringonça foi construída em 1769 por um certo Johan Wofgang von Kempelen, escritor, inventor. Edgar Alan Poe, escritor de gênio, estudou detidamente os pequenos detalhes visíveis do funcionamento do intrigante aparelho que jogava xadrez e teria induzido à derrota até mesmo Napoleão. Após assistir a inúmeras apresentações do autômato, Poe logo perceberia que “O Turco” não era “pura máquina”. E antes de o embuste ter sido desfeito na prática, o escritor já havia colocado em ‘xeque’ o estranho engenho. Segundo sua opinião, uma verdadeira máquina não poderia perder uma única partida. Os argumentos utilizados por Poe para desvendar a farsa estão contidos no conto/ensaio O jogador de xadrez de Maelzel, do livro Histórias extraordinárias. A nosso ver, esses argumentos avançam alguns daqueles que seriam utilizados, mais de cem anos depois, no famoso Teste de Turing. Alan Turing foi o matemático britânico que concebeu um teste, numa publicação de 1950 (Computing Machinery and Intelligence), para verificar se um programa de computador é ou não ‘inteligente’. Turing foi também quem primeiro concebeu, em 1952, sem auxílio de computador, um programa para o jogo de xadrez.
A questão da inteligência artificial versus inteligência humana foi objeto de um livro muito interessante, intitulado A mente nova do rei, de Roger Penrose (cuja edição original, The Emperor’s New Mind – Concerning Computers, Minds and the Laws of Physics, é de 1989). Curiosamente, em nenhum trecho do livro há referência ao ensaio de Poe, embora a literatura tenha sido, em mais esse exemplo, mais rápida do que a ciência...
Somente em 1997, o argumento de Poe foi comprovado, quando o famoso computador Deep Blue, da IBM, conseguiu derrotar o super campeão de xadrez, Kasparov. O próprio Kasparov, em artigo recente (na revista New York Review of Books, de 11 deste mês) reconhece a capacidade inusitada do computador para ganhar partidas de xadrez, embora lamente o fato de as pessoas jogarem cada vez mais como máquinas, em vez de utilizarem o xadrez para iluminarem o conhecimento da mente humana. Ou, assim pensamos, para apreciarem a arte de jogadas clássicas de gênios como Capablanca ou Philidor. Aliás, voltando ao autômato “O Turco”, acabou sendo descoberto que dentro dele havia sempre um enxadrista escondido. Um deles, segundo consta, era o francês Jacques-François Mouret, por sinal parente do próprio Philidor...
Essa história de “O Turco”, bem conhecida do mundo enxadrístico, foi retomada recentemente no romance A máquina de xadrez, do alemão Robert Löhr, publicado em 2007, pela Record. Ainda não o li, mas penso que deve ser boa leitura para um fim-de-semana...
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sábado, 13 de fevereiro de 2010


Robert Arlt e Fernando de Noronha

A crônica de Robert Arlt (1940-1942), que traduzi abaixo, faz parte do livro El paisaje en las nubes – crónicas en El mundo 1937-1942, editado em 2009, em Buenos Aires, pela Fondo de Cultura Económica. A edição e introdução é de Rose Corral, especialista da obra e biógrafa de Arlt; o prólogo é de Ricardo Piglia. É uma coletânea das crônicas do grande escritor argentino (Los siete locos, Los lanzallamas...), publicadas no jornal El Mundo, de 1937 a 1942, ano de sua morte. A crônica em questão é datada de 20 de março de 1937, um sábado. Trata da fuga de quatro presidiários da ilha de Fernando de Noronha, ocorrida na segunda-feira, ou seja, no dia 15 do mesmo mês. Procurei resguardar ao máximo o estilo do autor, cujas crônicas beiram a ficção e a linguagem foi sempre objeto da crítica dos ‘gramatiqueiros’ latinos.
Não sabemos se os jornais do Recife registraram a fuga que motivou a crônica, se a fuga ocorreu de fato, se alguém de Pernambuco tomou conhecimento da fuga ou da crônica; ou de ambas. Penso que não. Talvez Lula Arraes, a antena mais alerta da literatura pernambucana. Para mim, foi uma bela descoberta. Espero que assim seja para o leitor deste blog...

Quatro presidiários à deriva

Robert Arlt

Vi uma fotografia artística da ilha de Fernando de Noronha, em prata e negro, com a lua bombeando celagem de nuvens. Não se podia senão imaginar, diante desta paisagem, um poema de amor, naturalmente a bordo de um transatlântico. Um “Noturno” no piano do salão de festas da nave adequaria o quadro à situação.
Também vi outra fotografia da ilha de Fernando de Noronha. Era debaixo da desolação do sol tropical, os rochedos de lava vermelha numa calcinação de greda, e a água azul, tão quieta e resplandecentes como um lago de mármore das Mil e uma noites. Os leques dos altos coqueiros mostravam seus talhes verdes e, na costa, uma equipe de presidiários, com o traje branco, raiado horizontalmente com listas azuis, carregavam maletas numa balsa custodiada por soldados com fuzil a tiracolo. Essa baía onde trabalhavam os homens se chama Bahia do Cachorro.
A ilha é pequena. Vinte quilômetros quadrados e presídio. O presídio e a igreja de muros caiados e dois coqueiros em frente.
Desta ilha a Pernambuco há 24 horas de viagem por oceano, isto é, 380 quilômetros.
Desta ilha, como nos relatos de Emilio Salgari, quatro presidiários acabam de fugir. Fugiram na noite de segunda-feira. Numa balsa fabricada com troncos de coqueiros.
A balsa é o meio de navegação mais simples e primitivo. Troncos amarrados entre si por cordas de sisal. Possivelmente um mastro e como vela a roupa desfeita, costurada com tiras de couro. E em torno deste mastro, debaixo do ardentíssimo sol dos trópicos (é a latitude mais cálida do Brasil e a estação mais calorosa), quatro homens. Quatro homens, joguetes do oceano, em uma balsa de troncos e o vento inflando as velas de roupas presidiárias.
Fugiram de noite, para interpor entre eles e os avisos de busca 24 horas de vantagem. Os guia algum homem entendido nos trabalhos do mar? Quase todos os condenados que fugiram de Caiena se perderam na selva, foram entregues por nativos ou pereceram no inferno verde. Seguirão o mesmo destino estes homens que fugiram de Fernando de Noronha?
Aqui não existe o perigo da selva, mas o do oceano tragador. São 380 quilômetros de oceano. É certo que Colombo cruzou o Atlântico numa barqueta, que poderia equivaler a esta balsa dos fugitivos. A aventura tem sempre ângulos inesperados e os homens da conquista da América não eram menos imprudentes e ousados que os quatro presidiários.
As águas do oceano são ricas em peixes comestíveis que os homens pescam e os peixes que de uma dentada partem em dois um ser humano. Durante o dia, os aventureiros amainarão seu velame para não se fazerem visíveis à distância e não serem avistados pelos navios que atravessam o oceano nessa longitude. Possivelmente camuflaram a balsa, revestindo-a de folhagem; durante o dia, dormirão sob o disfarce de sua embarcação, que à distância parecerá uma ressaca movida pelo oceano. Ao cair da tarde, erguerão o mastro, içarão as velas, beberão a goles medidos a água doce que levaram da ilha numa lata e, no silêncio da grande planura ondulada, escrutarão o céu, em busca das estrelas que indicam a pista, se é que um deles não leva bússola ou o sagaz instinto da terra que se cheira nas emanações do ar.
Tudo é possível e a aventura maravilhosa e terrível, como a de todos aqueles relatos que é gostoso ler nas noites de chuva, junto a uma lâmpada que ilumina o quarto confortável.
As autoridades do presídio já crêem que esses homens e sua balsa soçobraram. O cronista desta nota, por simpatia pelo instinto de liberdade que conduz à execução de trabalhos sobre-humanos, crê que esses homens estão vivos, e que o lance deles pode chegar a bom termo. Imensas são as costas do Brasil, desmesuradas como nenhuma sobre a terra suas selvas; quatro homens que fogem de um presídio, tomando como caminho os caminhos da rosa-dos-ventos que se torvelinham no mar, não são nem mais nem menos empreendedores que aqueles outros, que nas cascas de nozes empreendiam a travessia de 11.000 léguas de água, e mais não sabiam aonde iam. Se o oceano se mantém em paz, e Netuno barbudo lança seus gênios na rota destes quatro condenados, cujos crimes ignoramos, porém de cuja audácia temos sobrada referência, eles chegarão às costas arenosas, ou às outras costas duras e penhascosas. Chegarão a um areal ou a alguma ponta de bosque da costa do Brasil, essa maravilhosa costa verde-garrafa e alaranjada, com cavernas verticais ou baías cor-de-rosa. Chegarão...e então, sim, ninguém mais saberá deles. A topografia do Brasil é vasta, montanhosa, dramática e circunspecta como convém a todas as terras onde a aventura só é possível mediante o auxílio oportuno do mistério.
(“Tiempos presentes”. 20 de março de 1937).
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domingo, 7 de fevereiro de 2010


Uma transcriação, em quéchua, do poeta peruano
William Hurtado de Mendoza Santander:

PISQA TAPUYKUNA
( Os cinco elementos)

Imaraykus unu, tapuywanki.
Raqrapi lluqsisqan rayku,
rumipi phutusqan,
muyuriqta pantachasqan rauku,
kay pacha hina kasqan rayku.

Imaraykus wayrari.
raphipipi chinkasqan rayku,
qaqapi llusp’isqan rayku
taki upallachisqan rayku.

Imaraykutaq ninari, tapuykunki.
sutita intusqan rayku,
llanthuta rawrichisqan rayku
nunanchista p’akirin:
usphapi tukuyta tukuchisqan rayku.

Imaraykutaq allpari, tapuykunki.
Purisqanchita kallpasqan rayku,
wichaymanta
runa kasqanchista
qhawanchis chayqa
millakunchis.

Imaraykutaq hanaqri.
Chukchaykita upallay munarikun:
raphimanta
llaki urmaqtin.
Ninataq, unutaq.
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O poema Os cinco elementos é do livro A rua do Padre Inglês: Por que água?, perguntas./Porque se insinua entre fendas,/brota entre pedras,/confunde as esferas,/toma a forma do Mundo./Por que vento?/Esvai-se entre ramos,/desliza entre abismos,/canta a voz que cede./Por que fogo? inquires./Circunda o nome,/labareda a sombra,/desintegra a alma:/e tudo torna cinza./Por que terra? interrogas./Porque submete os passos,/e quando a olhamos,/do alto,/sabemos do pó/a humana condição./Por que céu?/Um silêncio alisa tua pele:/entre folhas,/um sopro se desprende./Fogo e água...
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