terça-feira, 7 de maio de 2013

 
Como o touro
 
Miguel Hernández
 
Como o touro fui feito para o luto
e a dor, como o touro está marcado
por um ferro infernal o meu costado
e por vara nos vazios com um fruto.
 
Como o touro descobre diminuto
todo meu coração desmesurado,
e do rosto do beijo enamorado,
como o touro o teu amor disputo.
 
Como o touro cresço no castigo,
a língua no coração tenho banhada
e levo ao colo um vendaval sonoro.
 
Como o touro te sigo e te persigo,
e deixas meu desejo em uma espada,
como o touro burlado, como o touro

segunda-feira, 29 de abril de 2013





O menino delinquente precisa se tornar homem com rapidez, para ser punido ou destruído. A grande máquina não perdoa quem a transgride. Pune o pequeno traficante, mas acata o grande bandido. Prende e tortura quem a desafia, mas cobre de benesses quem com ela se acumplicia. Acobertados pelo emaranhado de leis e de normas seus subalternos se sentem levados a esquecer o humano e a louvar a Deus, de quem se acham cópias, ainda que  imperfeitas. E sob o código dessa imperfeição justificam a reprodução das leis das sociedades de classes, que julgam eternas.
Até que um dia surge a hecatombe, sob a forma do fundamentalismo ou do contra poder das milícias do narcotráfico. Ou, quem sabe, de outras formas quaisquer de revoltas desorganizadas ou de matanças descabidas. Aí chorarão a filha sequestrada, a mulher estuprada, o filho assassinado durante a tentativa de roubo do boné ou do automóvel.
Então, eles, que se guardavam indiferentes, em meio aos barulhos noturnos de suas festas no rol de algum edifício ou escutando o marulhar das rolhas de champanhe nos camarotes das grandes festas públicas, não mais se sentirão seguros em suas moradias cercadas de muros, cachorros, aparatos eletrônicos. Dar-se-ão conta, de repente, que sabem em que lugar do armário está o litro de uísque, mas ignoram onde os filhos se encontram.
Entõ, a grande máquina que não perdoa será suspendida nas enormes roldanas e lançada ao mar. E assistiremos à sua queda com um misto de medo e de júbilo. Como se em torno de nós não mais restasse senão a Grande Muralha da China.

domingo, 28 de abril de 2013





A Arca de Arturo Corcuera

Um poeta faz falar suas sombras e, ao mesmo tempo, povoa uma Arca de Noé com figuras da fundação de um mundo tão distante do monte Ararat, mas próximo do delírio que precede a criação de qualquer obra instigante. Este poeta é Arturo Corcuera. No confronto de dois mundos que conformaram seu país, o Peru, o movimento dialético de destruição e da criação engendrou monstros, mas fez desabrochar coisas nunca vistas, escritas até então impensadas. Da síntese dolorosa brotam obras primeiras, primas. Como Trilce, de Cesar Vallejo. Como o Noé delirante, de Arturo Corcuera.
Se outros de seus trabalhos haviam afirmado a dimensão de sua poética (a exemplo de Puerto de la memoria), Noé delirante é aquele no qual recorre ao seu universo mítico e desdobra-se num trabalho poético que lembra, em certos aspectos, a oficina de Montaigne: a do texto nunca acabado, burilado à guisa de testamento, e cujo intento é dizer, mais e com mais perfeição, de cada bicho, de cada objeto, de cada coisa. E de todo o incriado.
Mas o poeta Arturo Corcuera não é só livro, como alguns poetas que se limitam a lutar contra as palavras. Nele há um verbo encarnado, um apego a chão e estrela, a gente e a bicho. Sua poesia alimenta-se tanto da paixão como da ironia, vale-se dos elementos mais comuns de nossas vidas e dela poderíamos dizer como ele o fez sobre o capim: Gracias, hierba,/Naces para mitigar/Las durezas del camino.
Conhecemos Arturo Corcuera e Rosa na sua Villa de Santa Inés, em Chacaclayo, no vale do rio Rimac, arredores de Lima, lar que ele apelida morada dos duendes. O aconchego de um dia nos tornou amigos e nos fez cúmplices, a mim e a Sônia, da sua maneira de ser poeta. Era preciso ir até lá, como nos aconselhara nosso amigo comum, Thiago de Melo, para apreciar

La huerta y sus racimos,
el cielo de los pájaros,
aquella flor que passa
(la rosa es esta Rosa
que perfuma la casa).
En Santa Inés, morando
entre el cerro y el río.
Duendes, árboles, sueños:
el universo mío.



 Malabarismos



As histórias infantis se equivocam ao fazer crer aos seus leitores que o Bem sempre vence o Mal e a Sabedoria sempre derrota a Astúcia. Quase nunca é assim. 
Poucos percebem a ironia do malabarista que se exercita no sinal vermelho da avenida e diz ao proprietário do automóvel que lhe dá gorjeta (ou esmola?):
- Com isso vou comprar um carro!

Ele sabe que as acrobacias do político, do empreiteiro, do traficante serão sempre melhor recompensadas do que a alquimia do artista para transformar sofrimento em alegria ou êxtase. O malabarista transpira no cruzamento da Padre Roma com a Rosa e Silva para conseguir alguns trocados e diz aquilo sabendo que nunca terá automóvel e que as pessoas nem consideram o que ele faz como um trabalho. É difícil perceber que ele está falando sério porque nossa cultura - a mesma que nega recursos ao artista - incutiu-nos que querer é poder e com esforço sempre se consegue chegar lá. Essa ideologia do 'esforço' é a mesma que abafa o ócio criador.

Na mesma ordem de pensamento, é também um equívoco pretender que diploma confere ao titular capacidade para realizar alguma obra. Recentemente, um burocrata da cultura exigiu de um músico a certificação de cursos e diplomas para o exercício de sua profissão, como se assinaturas com firmas reconhecidas fossem mais importantes do que o exímio exercício da arte. O argumento de que a ausência de papéis justifica a negação da já pobre recompensa financeira atribuída aos artistas seria cômica se não padecesse daquela crueldade que foi tão genialmente esmiuçada por Kafka.  

Quando o músico - alguém reconhecido até por platéias estrangeiras eruditas - contou-me sua desventura com o funcionário da cultura que tentara lhe negar recursos para um trabalho sério, logo lhe contei o episódio de quando Villa Lobos chegou a Paris e, interrogado sobre quais universidades  havia frequentado, respondeu sem hesitar:

- A de Pixinguinha e João Pernambuco!

sábado, 13 de abril de 2013

 
 
Um certo goês
 
 A rua se chama Damião de Góis,
português de ascendência flamenga,
guarda-mor da Torre do Tombo,
perseguido pelo Santo Ofício,
cronista do rei D. Manuel.
É uma via estreita, quase vereda,
comparada às vastas avenidas que decompõem a cidade.
Bairro: Sommerschield;
nome também flamengo
(como Góis, quase goi).
No fim da rua não mora um anjo:
mas um sábio, indiano, cor de canela.
(Que pássaro, senão graúna,
para o negror do cabelo?)
Escritor, jornalista,
conselheiro ad hoc do presidente guerrilheiro,
é o maior conhecedor da África Austral.
Vem do outro lado do Índico.
Seu locus : Goa.
Melhor apelidar locus o lugar onde se surge:
espaço origem, simples condição:
sem pátria.
 
 Quatro séculos separam os dois cronistas:
o do Princípio e o do Fim.
O primeiro registra sucessos na Ásia:
Comentari Rerum Gestarum in India.
O segundo, rebusca anotações sobre derrotas em África,
a que se limita pelo Cabo da Boa Esperança.
E desemboca no Inferno.
 
 (No aquário, o pequeno tubarão,
entre peixes ornamentais do Lago Niassa.
O brilho das escamas daqueles que o cercam
não consegue dissuadir nosso olho.
Somente o seu negror clama, apela.
Mesmo entre os negros, ele é o mais negro:
nenhuma luz o ofusca).
 
O discurso é invertebrado,
mas múltiplo e severo:
a pontaria e a rapidez
de uma Kalashnikoff.
Há no escorrer das sílabas
algo de uma descarga de brigada ligeira:
Theirs not to reason why,
Theirs but to do and die:
Into the valley of Death.
 
 Numa mansão da avenida Kenneth Kaunda
dois homens se discutem, se descobrem:
desordenam.
O outro tem nome de pátria,
é calabrês, mas seu país é Barra do Piraí
As palavras chegam em látegos,
como as chuvas das monções.
Nenhuma pátria subverte
a água que rega o jardim dos homens.
(Somente raízes testemunham.)
 
 Into the valley of Death…
O do Princípio, o que dá nome à Rua:
a cabeça arrebentada
por algum hemisfério.
(Grande em demasia para caber o silêncio,
mínima para esconder o ruído
sinfônico das estrelas.)
Quanto ao do Fim, agarra-nos o braço,
perfura com o dedo o espaço.
Registra, em tom de segredo:
Há um vírus que não contamina
apenas a carne...
 
O saber é o maior pecado
entre todos pecados capitais.
(Maior que a soberba, a lúxúria,
a inveja. Até mesmo a bondade.)
 
Nos corredores domina o branco,
com astúcias do caçador de safári.
Desgoverna o búfalo no vale de Morogoro.
o leão na savana de Gorongosa:
a alça de mira posta,
ao dedo basta o leve toque.
Dixit De Gaulle:
A virtude do político
é a ingratidão.
 
Nem saraivada de granizos,
nem baterias antiaéreas:
o estrépito pousa no ar,
grito congelado de algum deus.
Nem o embate de corpos,
nem trovoadas
sobre os campos do Limpopo:
uma fenda, um fogo fátuo, uma ferida
há muito descrita por ele:
todas as águas correm para o Nascente:
não há ninguém para manejar comportas.
 
(Numa certa mansão
da Avenida Keneth Kaunda,
dois homens se confabulam:
buscam entrelinhas, espaços, equações
onde incrustar o átomo que se acomoda
após a refrega:
a curva de uma rede no terraço
de Barra do Piraí,
o sinuoso recuerdo
de uma Índia perdida.)
 
O estrondo é signo do desfazimento:
o grande abutre metálico
espatifa-se entre
persianas de nuvens.
Depois, o rol dos nomes,
ratos devoradores de arquivos,
miopia abnegada
de um olhar sem espelhos.
(Ponto final ou hífen?).
 
 Quatro séculos reúnem os dois cronistas:
o do Princípio e o do Futuro.
O primeiro segreda sucessos na Ásia:
Comentari Rerum Gestarum in India.
O segundo, decifra descaminhos na África
que se limita pelo Cabo:
 
o das Tormentas.

 
(No aquário, o pequeno tubarão
insinua-se entre algas.
As borbulhas ascendem em ritmo contínuo:
é o mais negro
entre os negros).

 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013




    


O GRANDE-PEIXE DA EXISTÊNCIA
Luis Augusto Cassas
 
todo dia eu te como
super diferente
salada crua
ou sopa quente

 
todo dia eu te como
maionese e mostarda
natural /defumado
pão e salada
 
fast-food do todo
hambúrguer da vida
self-service do novo
peixe de água-viva
 
às vezes receio
engolir a espinha
e viver como Jonas
no ventre da tainha
 
todo dia eu como
as letras do teu nome
as palavras fritas
saciam-me a fome
 
(Luís Augusto Cassas, uma voz do Maranhão a ser ouvida)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012



GRANTA 10

"O décimo volume de Granta em português traz 14 textos inéditos no Brasil que remetem a situações-limite. Mesclando nomes nacionais e internacionais já consagrados e outros promissores, a edição reúne contos, ensaios, relatos e cartas que abordam o extremo da loucura, da doença e do sexo, ou ainda que narram momentos, sem precedentes, de crise. São histórias sobre envolvimento com drogas, mazelas de guerras, perda da memória e, em caso extremo, a própria morte.

Will Self abre a edição de Granta: medidas extremas com um relato de cunho autobiográfico sobre uma crise aguda em sua vida. De língua inglesa, está também presente uma heterogênea seleção de escritores norte-americanos, entre eles Stephen King, Don DeLillo, A. M. Homes e Phil Klay, além da inglesa Jeanette Winterson e da canadense Alice Munro.
O volume inclui um ensaio de Roberto Bolaño e um conto de Evelio Rosero, considerado um dos grandes escritores colombianos da geração pós-García Marquez. Há ainda uma compilação de cartas de António Lobo Antunes destinadas a sua mulher, então grávida, durante a guerra em Angola. De autores brasileiros, há textos de Beatriz Bracher, Andréa del Fuego, Adriana Lisboa e Everardo Norões. A revista dispõe ainda do ensaio em cores com 13 fotos das esculturas do artista plástico mineiro Matheus Rocha Pitta, que prepara atualmente uma exposição para a Fondazione Volume!, em Roma.
Já publicado na edição inglesa de Granta sobre terror, Will Self, um dos finalistas do Booker Prize, escreve o relato “Sangue falso” em primeira pessoa. Nele, o escritor detalha o diagnóstico de Policitemia vera recebido durante a virada de 2010 para 2011. A estranha enfermidade gera o súbito aumento de glóbulos vermelhos no sangue, tornando-o mais grosso. Com franqueza desconcertante, o autor de Grandes símios rememora o abuso de drogas durante sua juventude, sem, no entanto, buscar justificativas para seus atos nem expiar qualquer culpa do passado.
Bem antes de tornar-se um dos mais célebres escritores de língua portuguesa, António Lobo Antunes participou do conflito colonial de Angola como médico do exército português entre 1970 e 1973. Durante o período, ele trocou uma série de cartas com sua então mulher, dentre as quais 12 foram selecionadas para essa edição. A correspondência flagra o autor em momentos de intimidade, discorrendo sobre o amor, a medicina, a literatura e a guerra. As mensagens fazem parte do livro D’este viver aqui neste papel descripto, organizado por suas filhas e publicado em Portugal em 2005.
Cultuado como o maior expoente da literatura latino-americana contemporânea, Roberto Bolaño tem o ensaio “Literatura + doença = doença”, extraído do livro El gaucho insufrible, publicado nessa edição. Em tom áspero, o chileno fala sobre o ato de escrever, a doença e a morte: “Escrever sobre a doença, principalmente se você estiver gravemente doente, pode ser um suplício. Escrever sobre a doença se você, além de estar gravemente doente, é hipocondríaco, é um ato de masoquismo ou de desespero. Mas também pode ser um ato libertador. Exercer, durante alguns minutos, a tirania da doença (...) é uma tentação, uma tentação diabólica, mas ainda uma tentação.”
Entre os brasileiros, a escritora Beatriz Bracher escreve um conto mimetizando um diário de uma mulher que viaja em busca de seu irmão a uma região de garimpo no Pará. Adriana Lisboa, que lançará romance pela Alfaguara em 2013, transita em “Aquele ano em Rishikesh” pela fronteira entre ilusão e realidade ao abordar o Alzheimer de uma idosa em meio a pensamentos confusos e desconexos com algum fundo de verdade.
Em “Sofia, o motorista e o cobrador”, Andréa del Fuego dá vida a um cobrador de ônibus quarentão e sem olfato que cria uma obsessão por Sofia, uma das passageiras. Fechando o time de escritores nacionais, o poeta cearense Everardo Norões, já traduzido para diversos idiomas, tem o conto “Na varanda, sobre o bulevar”, extraído de seu primeiro livro dedicado ao gênero, incluído nessa edição. O texto de tom onírico é forjado entre o exotismo de uma cultura estrangeira e repressora e de sensualidade latente. "