segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012


A carta de Flaubert

À Mademoiselle Leroyer de Chantepie.
[Croisset, 4 septembre 1858.]

Vous devez me trouver bien oublieux, chère Demoiselle. Excusez-moi, je travaille en ce moment-ci énormément. Je me couche tous les soirs exténué comme un manoeuvre qui a cassé du caillou sur les grandes routes. Voilà trois mois que je n’ai bougé de mon fauteuil que pour me plonger dans la Seine, quand il faisait chaud. Et le résultat de tout cela consiste en un chapitre ! Pas plus ! Encore n’est-il pas fini. J’en ai encore au moins une dizaine à faire, je ne sais rien du dehors et ne lis rien d’étranger à mon travail. Il est même probable que je n’irai guère à Paris cet hiver. Je laisserai ma mère y aller seule. Il faudra pourtant que je m’absente au mois de novembre une quinzaine de jours, à cause des répétitions d’Hélène Peyron, un nouveau drame de mon ami Bouilhet, qui sera joué à l’Odéon. À propos de mes amis, avez-vous lu Fanny, par E Feydeau ? Je serais curieux de savoir ce que vous en pensez.
Maintenant que j’ai parlé de moi, parlons de vous.
Vous m’avez envoyé une bien belle lettre la dernière fois. L’histoire de Mlle Agathe m’a navré ! Pauvre âme ! Comme elle a dû souffrir ! Vous devriez écrire cela, vous qui cherchez des sujets de travail. Vous verriez quel soulagement se ferait en votre coeur, si vous tâchiez de peindre celui des autres.
Le conte que j’ai reçu de vous au mois d’avril n’a pas été remis à la Presse, parce qu’il m’est arrivé la veille ou l’avant-veille de mon départ. Il est resté à Paris dans mon tiroir ; je sais d’ailleurs qu’on le refuserait à cause du sujet, qui ne convient pas aux exigences du journal. J’essayerai, cependant. Pourquoi ne travaillez-vous pas davantage ? Le seul moyen de supporter l’existence, c’est de s’étourdir dans la littérature comme dans une orgie perpétuelle. Le vin de l’Art cause une longue ivresse et il est inépuisable. C’est de penser à soi qui rend malheureux.
J’ai été bien impressionné par le massacre de Djedda et je le suis encore par tout ce qui passe en Orient. Cela me paraît extrêmement grave. C’est le commencement de la guerre religieuse. Car il faut que cette question se vide ; on la passe sous silence et au fond c’est la seule dont on se soucie. La philosophie ne peut pas continuer à se taire ou à faire des périphases. Tout cela se videra par l’épée, vous verrez.
Il me semble que les gouvernements sont idiots en cette matière. On va envoyer contre les musulmans des soldats et du canon. C’est un Voltaire qu’il leur faudrait ! Et l’on criera de plus belle au fanatisme ! à qui la faute ? Et puis, tout doucement, la lutte va venir en Europe. Dans cent ans d’ici, elle ne contiendra plus que deux peuples, les catholiques d’un côté et les philosophes de l’autre.
Vous êtes comme elle, vous, comme l’Europe, – déchirée par deux principes contradictoires, et c’est pour cela que vous êtes malade.




Em todo curso de literatura deveria ser obrigatória a leitura de um dos mais instigantes ensaios literários: A orgia perpétua, de Mario Vargas Llosa. O título é tirado de uma frase de Gustave Flaubert, que serve de epígrafe ao livro (“O único meio de suportar a existência  é de se aturdir  na literatura, como numa orgia perpétua”) e consta de uma correspondência dirigida a Mlle. Leroyer de Chantepie, dois anos depois de Madame Bovary ter sido publicado pela primeira vez, em La Revue de Paris.
La orgia perpetua começa com um capítulo intitulado Uma paixão não correspondida, no qual Vargas Llosa descreve como brotou, e nunca cessou de crescer, sua admiração pelo escritor francês, tido como o pai do romance moderno.  Em seguida, sob a forma de uma espécie de entrevista a si mesmo, responde às questões que procuram explicar o surgimento da ideia do Madame Bovary e todos os mecanismos utilizados na sua realização. Vem depois a análise crítica de Vargas Llosa, descrição dos mecanismos literários utilizados por Flaubert, muitos dos quais o escritor peruano iria se valer em romances como seu último O sonho do Celta.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012



Quando ouvi a música Água viva (Raul Seixas e Paulo Coelho), algo me disse: conheço bem a fonte. A fonte, que é vinho, conforme observou um amigo crítico; vinho, transformado em sangria. Porque a fonte é um poema de San Juan de la Cruz, o Cantar da alma que se alegra em conhecer Deus pela fé. A fonte que mana e corre foi cantada pelas crianças da Funase, no auditório da Compesa. Qual delas um dia irá saborear a poesia do grande místico espanhol, despida de ‘adaptações’, na pureza de olho d’água da serra ou do vinho que também umedeceu a boca de Hafiz?

Água Viva
 Raul Seixas

Eu conheço bem a fonte
Que desce aquele monte
Ainda que seja de noite
Nessa fonte está escondida

O segredo dessa vida
Ainda que seja de noite
"Êta" fonte mais estranha,
que desce pela montanha
Ainda que seja de noite.

Sei que não podia ser mais bela
Que os céus e a terra, bebem dela
Ainda que seja de noite

Sei que são caudalosas as correntes
Que regam os céus, infernos
Regam gentes
Ainda que seja de noite

Aqui se está chamando as criaturas
Que desta água se fartam mesmo
às escuras
Ainda que seja de noite
Ainda que seja de noite...

Eu conheço bem a fonte
Que desce daquele monte
Ainda que seja de noite
Porque ainda é de noite!
No dia claro dessa noite!
Porque ainda é de noite
***
Cantar del alma que se huelga 
de conocer a Dios por fe

San Juan de la Cruz

Qué bien sé yo la fonte que mane y corre,
aunque es de noche.

1. Aquella eterna fonte está escondida,
que bien sé yo do tiene su manida,
aunque es de noche.

2. Su origen no lo sé, pues no le tiene,
mas sé que todo origen de ella tiene,
aunque es de noche.

3. Sé que no puede ser cosa tan bella,
y que cielos y tierra beben de ella,
aunque es de noche.

4. Bien sé que suelo en ella no se halla,
y que ninguno puede vadealla,
aunque es de noche.

5. Su claridad nunca es oscurecida,
y sé que toda luz de ella es venida,
aunque es de noche.

6. Sé ser tan caudalosos sus corrientes.
que infiernos, cielos riegan y las gentes,
aunque es de noche.

7. El corriente que nace de esta fuente
bien sé que es tan capaz y omnipotente,
aunque es de noche.

8. El corriente que de estas dos procede
sé que ninguna de ellas le precede,
aunque es de noche.

9. Aquesta eterna fonte está escondida
en este vivo pan por darnos vida,
aunque es de noche.

10. Aquí se está llamando a las criaturas,
y de esta agua se hartan, aunque a oscuras
porque es de noche.

11. Aquesta viva fuente que deseo,
en este pan de vida yo la veo,
aunque es de noche.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012


 Como era Camões?

A fisionomia de um autor não tem muita importância. É a obra que vale. Tratando-se de Camões, no entanto, sua iconografia foi tão difundida que às vezes entre dois de seus retratos a única coisa que se assemelha é o olho cego. B. Xavier Coutinho, no estudo Camões e as artes plásticas: subsídios para a iconografia camoniana, publicado em dois volumes pela Livraria Figueirinha, no Porto (1946) – que contem certamente a mais exaustiva documentação sobre o assunto –, escreve que “dois retratos estão na base de toda a iconografia camoniana, um o que foi desenhado por Fernando Gomes, aí por 1570, e o outro, o retrato oriental datado de 1581. Há pouco ainda reveladas estas duas espécies notáveis são a verdadeira certidão de autenticidade, em contra-prova, dos traços fisionômicos de Camões que, no século XVII, as gravuras de A. Paulus (1624) e Pedro de Villa Franca Malagon (1639) popularizaram superabundantemente, levando-os ao prelo a todos os recantos da terra”. 

Ibn Kaldhun: lições sobre poética

Ibn Kaldhun (1332-1406) escreveu as Moqadimmah, uma espécie de Ciência Nova da história. O seu tratado enciclopédico buscou compreender o estado social do homem e o evoluir das civilizações. Sua obra ocupa lugar especial na literatura.
A Poesia (Shir) merece observações interessantes do escritor e historiador, um dos mais cultos de sua época. De todas as formas de alocução a Poesia é, segundo ele, a que os árabes consideravam a mais nobre. Em contradição com a escrita dos prosadores, a poesia, segundo Ibn Kaldhun, é um discurso eficaz, fundado na metáfora e nas descrições e dividido em trechos que se correspondem pela medida (prosódia) e pela rima; trechos que, cada um, independentemente do que precede e do que se segue, expressam um pensamento cabal e têm um objeto determinado. 
O estilo é definido como a “linguagem da gente de arte” e os requisitos que ele considera fundamentais para compor versos e dominar a arte respectiva são os seguintes:
1.Aprender de memória muitos trechos poéticos até que “a alma tenha adquirido a faculdade de tecer o mesmo tear”. Os trechos a serem decorados devem ser de autoria de poetas insignes.
2.Procurar um retiro absoluto, regado por águas correntes e povoado de flores para se entregar às especulações.
3.Ter consciência do quanto custa colocar a rima no devido lugar.
4.Evitar as expressões vulgares.
5.Ser consciente de que a poesia só é fácil quando as ideias são apresentadas ao entendimento simultaneamente com as palavras.
Ibn Kaldhun critica cânticos que contêm louvores ao Senhor e ao Profeta e raramente são bem feitos, pois esse tipo de composição requer bardos de talento superior. E para definição de poesia cita o poeta An-Nashi: “A poesia é a coisa cuja medida tu regularizas e cujo texto retocas com o objetivo de estreitar-lhe seus laços. Nela verás desregrar-se o ornato quando teu estilo é prolixo e nela aumentarás os encantos através da concisão”.
Acredito que poucos autores de seu tempo debruçaram-se com tal rigor e sabedoria sobre as questões técnicas da poesia e do gosto como árbitro.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

 
a rosa de Frankfurt

Romar Beling

pelo Meno
eu vi descer
a rosa vermelha que ela jogou

por que o fez?

segui com olhos apreensivos
seus versos passos pela rua

depois o carro a absorveu
e a levou para adentro da cidade

tão linda, já havia sumido
na correnteza madura

(a rosa,
que mãos colheram
numa canção,
ainda flutua
num rio secreto
dentro de mim)   

Frankfurt-am-Main,
setembro de 2002 


{A alegria de conhecer um poeta assim, esses versos soprados pelo minuano, de onde nos chegaram os de Mário Quintana e os de Augusto Meyer. Romar Beling é autor de Noites em chamas (Editora Gazeta, 2011). Um poeta.}

terça-feira, 17 de janeiro de 2012



Só agora, passada a ocasião em que todo o mundo se sente obrigado a falar do morto, escrevo sobre Luis Carlos Monteiro. Uma semana antes de seu passamento – termo mais simpático, que aprendi nos velórios de antigamente – fez-me uma visita. Ficamos quase uma tarde a conversar. Havia trazido meu exemplar da antologia de crônicas, que ele organizara para o Instituto Maximiano Campos, e prometera entregar-me em mão. Foi o bom pretexto para o encontro, o último. Falou de literatura com o respeito do artesão que ama o ofício,  aquele seu jeito modesto e simpático de operário das letras. Nos textos de seu blog, para o qual escrevia suas resenhas críticas de forma sistemática, percebia-se o quanto lia e acompanhava o universo dos livros. E mesmo quando seus escritos padeciam eventualmente de alguma observação discutível, ou eram merecedores de algum reparo, sentia-se que eram movidos por uma força maior que os salvava: a paixão pela literatura. Não parecia bem, naquela tarde, Luís Carlos. Via-se que um mal qualquer lhe tocara. Mas ninguém pressentia que Ela chegaria tão depressa. Saiu alegre da visita, com a promessa de uma nova conversa, deixando no ar seu Mundo circundante, que poderemos reler com saudade até quado a internet o mantiver, e no qual postou, nos seus últimos dias, à guisa de testamento ou de pressentimento, este poema de Micheliny Verunschk:

História
 Micheliny Verunschk

Desenterrar os mortos
e chupar seus ossos,
sugar seu mosto
de terra e sangue seco,
seu gosto secreto
de anos infindáveis,
arcos,
costelas,
arquitetura.

Se infeccionar com os mortos.
Triturar seus artelhos
de esponja ressequida,
pintar de negro e noite
de dentes e saliva
e abandonar o sonho
viva, muito viva. 

sábado, 24 de dezembro de 2011



Hoje quis escolher um poema de um poeta brasileiro, Maurício de Macedo. Talvez não combine com tal espírito do natal (se é que nosso natal tem algum espírito). Ou talvez combine com o Nascimento, mais do que a corrida aos shoppings para a desobrigação dos presentes ou a ressaca dos que comemoram para esquecer – ou tripudiar – os vizinhos da periferia, pobres como o Cristo.

Bondade e inocência

Maurício de Macedo

Jesus não escreveu o Evangelho.
Jesus apenas rabiscou com o dedo
Uma palavra na areia.
O alto clero sempre soube de tudo.
Não há inocente no alto clero.

Pode ser bom quem não é inocente?

(do livro Palavras tortas. Ed. 7Letras, Rio de Janeiro. 2009)


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011



Rumo ao feio 3

O álcool é fonte de energia. Movimenta carros e gente. Em ambos detona um motor à explosão. É menos grave quando utilizado em automóveis. Quando se trata de gente é estopim que age até mesmo com efeito retardado.
Parte de nossa classe média reage contra medidas propostas para tolher os efeitos que o álcool provoca nas pessoas. Apela para um discurso equivocado, como se contenção do vício que conduz à violência fosse uma espécie de atentado à liberdade individual. É a classe média que não admite qualquer mudança no seu trem de vida, mesmo quando se trata de melhorar a dos outros; a classe média que anda de carro do ano, mas não paga taxa de condomínio; a que olha tanto para si próprio que não enxerga quem vive na favela ao lado; a que faz barulho sem constrangimento de incomodar o vizinho; a que se diz de esquerda e trata empregado como no tempo da colônia.; a que diz simpatizar com Cuba, mas tem como sonho de consumo viver em Miami.


Rumo ao feio 2

Ouvi num programa de rádio a voz de uma responsável da prefeitura anunciar que não devemos dar esmolas aos pedintes de rua. Segundo ela, todos os que vivem nas calçadas são conhecidos, há estatísticas sobre isso, um programa para que todos regressem à família.
Até parece que não vivemos na mesma cidade. Na minha, a maioria dessas pessoas, muitas delas adolescentes, não têm pai ou mãe. Ou, quando os têm, são meras figuras de retórica. Muitas dessas mães – quando existem – são levadas à prostituição ou ao tráfico de drogas e às vezes neles introduzem os próprios filhos.
Pensar que a volta à família (que família?) resolve a questão é ignorância ou descaso. Onde moro, crianças perambulam pela rua e não tenho conhecimento de qualquer lugar decente onde menores pedintes ou delinquentes são acolhidos, como nas colônias de Makarenko. O que acontece, na maioria das vezes, é que o regresso à “família” significa permanecer no submundo do crime e morrer antes dos vinte.
A responsável da prefeitura também parece não saber – embora as estatísticas confirmem – que hoje em dia um imenso número de mães tiveram filhos antes dos quinze. Crianças parindo crianças.  
Ouvir tanta tolice de alguém que se diz representante de um órgão público e fala com tanta convicção do que não sabe não resulta apenas em tolice. Em casos como este, tolice também mata.